
Bar Brasil: especialidades alemãs na Lapa desde 1907 — Foto: Alexandre Macieira/Riotur
GERADO EM: 15/07/2026 - 22:51
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A melhor notícia deste fim de Copa não chegou por alerta no celular. Encontrei-a numa hora de almoço: o Bar Brasil tem ficado cheio. A casa sempre abriu nesse horário,mas,de um tempo para cá,as mesas estão mais ocupadas,os garçons cruzam o salão e os copos chegam com a espuma ainda subindo. Depois de um mês de Mundial em que,para mim,quase tudo passou por telas,estádios e fusos,dá conforto encontrar a vida acontecendo na velha velocidade de um bar.
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Há uma Lapa antes da porta do Bar Brasil e outra depois que se entra. Do lado de fora,quando o dia avança,caixas de som disputam a rua e muitas casas parecem obrigadas a demonstrar animação. Lá dentro,o teto alto devolve espaço à conversa,as geladeiras antigas seguem trabalhando,a madeira escureceu com o uso e o salão conserva um ar de armazém alemão que nenhuma reforma temática reproduziria.
O Bar Brasil está ali desde 1907,primeiro como Zeppelin,depois com o nome que atravessou o século e,neste fim de Copa,ganhou certa ironia. Enquanto o Brasil não cumpriu o que prometia,o Bar Brasil continua entregando exatamente o que anuncia. Sobreviveu a guerras,crises,mudanças de gosto e sucessivas invenções da noite carioca. O tempo não virou conceito. Ficou nas paredes,nos móveis,na chopeira e na impressão de que cada coisa permanece porque ainda cumpre sua função.
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Há bares novos tentando comprar essa aparência. Pendura-se uma placa antiga,envelhece-se um espelho,espalham-se objetos que ninguém jamais usou e nasce uma tradição pronta para fotografia. No Bar Brasil,o passado não serve de decoração. As coisas são bonitas porque foram gastas,e o salão tem alma porque muita gente já deixou algo de si ali dentro.
A comida participa dessa continuidade. O patê tem gosto de mercearia alemã e pede que se leve um pouco para casa. Os croquetes mudaram,tema sensível entre fregueses antigos,mas continuam muito bons. As salsichas,o chucrute e a salada de batata chegam em porções generosas,e o kassler,carne defumada e sem frivolidade,resolve o almoço com a autoridade dos pratos que sabem para que existem.
O chope explica o resto. O colarinho cresce quando o líquido bate no fundo do copo e levanta a própria espuma,alta,viva,carioca. Em muitos bares recentes,a cobertura cremosa é servida depois,também deliciosa. No Bar Brasil,porém,não é peruca,é espuma de verdade. O copo chega à mesa como resultado de um gesto aprendido,repetido milhares de vezes e ainda executado com respeito.
A contradição aparece quando a noite baixa e a Lapa vira a Lapa. A casa às vezes se esvazia mais do que merece,enquanto bares ao redor,com cara de balada e pouco a dizer,lotam. Isso me entristece mais do que deveria. Costumo passar ali antes de um show no Circo Voador e depois vou ouvir música alta. Existe uma ordem para essas coisas. Primeiro contemplo o bar. Sento,peço um chope,deixo o olho percorrer o salão,como alguma coisa. Só então atravesso para o barulho.
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A Lapa anda perdendo esse intervalo. Tudo precisa começar no auge,com volume,urgência e uma alegria anunciada para a calçada. O Bar Brasil oferece a preparação da noite,o primeiro copo,a conversa sem esforço e alguns minutos para perceber onde se está.
Termino o chope,saio para a rua e a Lapa volta a gritar. Atrás de mim,o Bar Brasil permanece inteiro,sem pedir atenção. Há mais de um século,sabe que permanecer também é uma maneira de falar. Mas não muito alto,por favor.

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