
Fragmento de 'O beijo',pintura de Francisco Hayez — Foto: Reprodução
Dados do IBGE mostram que os divórcios no Brasil quase dobraram desde 2010,com o tempo médio de casamento caindo para 13 anos e 60% dos pedidos não consensuais partindo de mulheres. A psicóloga Esther Perel aponta o amor romântico como o causador dessa insatisfação,ao criar a ilusão de que uma única pessoa deve ser,ao mesmo tempo,parceira de vida ideal,amante perfeita e excelente mãe ou pai. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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Tenho horror a restaurantes apertados,com mesas muito próximas e cadeiras coladas umas às outras. Minha repulsa passa longe do medo de qualquer vírus ou do risco de incomodar os vizinhos. Meu problema é moral. A proximidade me desestabiliza. Do nada,esqueço que proximidade não é convite à intimidade e dou por mim prestando atenção na conversa da mesa vizinha.
A falha é tão grave que,tempos atrás,no Gula Gula do Jardim Botânico,duas jovens se indignaram com a minha falta de educação. A ponto de a mais jovem fazer do garçom um pombo-correio sem função. O recado,dito de forma clara,nas alturas,nem precisava de mediador. Eu ouvi: “Avise a esse senhor aí do lado que,se ele não tem assunto com os amigos dele,que pelo menos pare de prestar atenção no nosso.” Cínico,mandei de volta: “Impossível.”
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As moças disputavam entre si quem sofria mais. Uma vivia um relacionamento longo,dos tempos da adolescência,e reclamava da calmaria da rotina,das dificuldades de manter o desejo sexual do parceiro e do fastio de repetir todos os dias a mesma comida. A outra,na selva dos aplicativos de encontro,contava as loucuras da vida de solteira,mas dizia sentir falta da sensação de parceria e estabilidade de um namoro. Juntas,faziam um balanço dos prós e contras de cada situação. Não demoraram muito e chegaram a uma conclusão: “É,amiga,tudo não terás.” Sábias.
Esther Perel,psicóloga belga radicada em Nova York,coloca a culpa do drama vivido pelas meninas no amor romântico. A ideia de que cada um de nós será capaz de,ao longo da vida,encontrar uma alma disposta a realizar nosso sonho de consumo afetivo e sexual tem mais de 300 anos. E foi fundamental para a formação da família tal como a conhecemos,dos casais apaixonados das novelas e,sobretudo,da dor de cabeça causada por um inventário malfeito,uma vez que,desde então,o patrimônio acumulado ao longo da vida é da família,sejam os cônjuges,sejam os filhos. Mas os problemas não param aí.
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A cilada criada pelo amor romântico mora no impossível. Desde a sua invenção,passamos a acreditar que uma alma gêmea,para ser verdadeiramente uma alma gêmea,precisa preencher três requisitos fundamentais (parece pouco,mas é demais). Primeiro,a figura amada deve ser um ótimo parceiro de vida,isto é,alguém com quem você possa contar nos momentos bons e ruins. Além disso,é importante que seja protagonista no panteão mítico das suas fantasias sexuais. Por fim,deve ser útil o suficiente para desempenhar o papel esperado de pai ou mãe no núcleo familiar. Enfim,o amor verdadeiro só é possível com muita amizade,ótimo sexo e pleno desempenho na parentalidade. Tudo não terás,caro leitor.
O IBGE dá razão às meninas do Gula Gula. Os divórcios no Brasil quase dobraram desde 2010,o tempo médio de casamento caiu para 13 anos e quase metade das separações acontece antes de completar uma década de união. Nos pedidos não consensuais,60% partem das mulheres. O amor romântico prometeu tudo: parceria,desejo e família numa pessoa só. A conta chegou aos cartórios. E,ao que parece,ninguém mais aceita ter menos do que prometem os devaneios e as comédias românticas. A vida é mais complexa.

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