
Presidente Lula no Palácio do Planalto — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
A coordenação de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição intensificou nas últimas semanas gestos aos evangélicos,numa tentativa de aproximar o petista do segmento,que é mais alinhado à direita.
Pesquisa Quaest divulgada na última sexta-feira mostrou que o presidente tem 24% das intenções de voto no público evangélico,enquanto seu principal adversário na disputa,Flávio Bolsonaro (PL-RJ),registrou 43% no primeiro turno. No segundo,essa diferença passa para 53% a 28%. A margem de erro é de quatro pontos percentuais. Em comparação ao levantamento divulgado no começo de agosto,nesse grupo,Lula caiu cinco pontos percentuais,passando de 33%,no começo de agosto,para 28%,enquanto Flávio subiu na mesma proporção: de 48% para 53%.
Aliados de Lula dizem que,assim como o presidente reforça em discursos há anos,não deve ocorrer nenhum evento do petista em igrejas ou cultos. Ele já afirmou diversas vezes que é católico,mas que não irá fazer dos púlpitos palanques eleitorais. Apesar disso,diferentemente de 2022,a campanha deste ano tem reforçado as sinalizações mais diretas ao segmento.
Um ato voltado a evangélicos está sendo discutido pela equipe da campanha de Lula,mas ainda não há consenso sobre a realização ou não dele. De um lado,aliados defendem esse gesto mais conciso voltado ao segmento. De outro,há quem avalie que medidas assim podem soar artificiais e eleitoreiras. Esse segundo grupo defende que o diálogo com evangélicos se dê pela promoção das políticas públicas e iniciativas do governo para as famílias brasileiras,mostrando como o público evangélico é beneficiado por elas.
De acordo com relatos,a expectativa é que essa iniciativa,se sair do papel,ocorra nas próximas semanas,preferencialmente no Rio de Janeiro,reduto de Flávio Bolsonaro — mas longe de igrejas. Uma ideia discutida é um encontro com lideranças evangélicas. O martelo,no entanto,ainda não está batido.
Coordenador nacional do setor inter-religioso do PT,Gutierres Barbosa afirma que há um desejo de aprofundar o diálogo com evangélicos e que o partido e a coordenação de Lula estão "construindo o melhor momento" para que essa atividade ocorra.
Ele diz que é preciso fazer frente à desinformação “porque há muita fake news” sobre o presidente e o governo petista que “chega muito rápido no segmento religioso”.
— Queremos aprofundar ainda mais esse diálogo. Mas não podemos fazer da mesma forma que a direita faz de transformar espaços sagrados em palanque. É um cuidado que temos — diz.
O teólogo e pastor presbiteriano Luís Alberto Mendonça Sabanay,dirigente nacional do PT e coordenador do núcleo sobre religião da Fundação Perseu Abramo,ligado à sigla,diz ao GLOBO que há uma “decisão política" de "aprofundar e dar mais escala ao diálogo com evangélicos como parte da estratégia” da campanha deste ano. Ele diz,que isso não começou agora e destacou ações da sigla voltadas ao segmento nos últimos anos.
Ele afirma ainda que esse público é “decisivo e disputado” nas eleições,mas que é possível conquistar o voto evangélico,que não estaria definido,apontando oscilações nas pesquisas de intenção de votos dos candidatos nesse segmento. Sabanay também diz que há a possibilidade dessa atividade no Rio voltada a evangélicos ocorrer nas próximas semanas,mas que é uma iniciativa em avaliação “dentro de uma estratégia mais ampla de diálogo com o segmento”.
— Considero necessário ampliar o diálogo na campanha: encontros com lideranças,escuta das comunidades e apresentação do projeto de país. Um ato específico pode fazer parte dessa estratégia,mas não vejo sentido em transformar culto em palanque ou tentar artificialmente adaptar Lula à linguagem religiosa — diz Sabanay.
Em junho deste ano,o PT divulgou uma carta voltada ao público evangélico. O texto não faz menção às pautas controversas,como o aborto,que é defendida pela esquerda e criticada por esse segmento. Em 2022,houve resistência a essa iniciativa,mas Lula acabou sendo convencido e divulgou uma carta para esse público entre o primeiro e segundo turno daquele ano.
Depois da divulgação da carta deste ano,o PT também fez outras iniciativas voltadas ao segmento religioso como um todo,com evangélicos,católicos e espíritas. No próximo dia 24,haverá uma plenária virtual para marcar o lançamento do grupo Evangélicos com Lula.
Esse aceno ao público evangélico também é percebido nas peças de campanha e até mesmo em jingle que foram divulgados pela equipe do petista. No domingo,no ato que lançou oficialmente a candidatura de Lula,a primeira-dama,Rosângela da Silva,a Janja,cantou ao lado do pastor Kléber Lucas um jingle gospel. Ela gravou os vocais em estúdio.
A primeira-dama tem sido uma das figuras do governo atuando na aproximação do segmento religioso com o Planalto,diferentemente da postura que adotou em 2022. Desde 2025,organizou encontros com mulheres evangélicas.
Como mostrou o GLOBO,apesar desse esforço,o posicionamento da primeira-dama como a aprovação do projeto de lei que criminaliza a misoginia —que não avançou na Câmara por enfrentar resistência entre partidos e entre parlamentares da bancada evangélica— ainda são empecilhos nessa tentativa de criar conexões com esse público.
O PT aposta ainda em alguns aliados de Lula para reforçar essa relação com os evangélicos,entre eles o chefe da Advocacia-Geral da União,Jorge Messias,a senadora Eliziane Gama (PT-MA) e a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ).
Benedita diz que a relação de governos do PT com o segmento evangélico sempre existiu,seja no diálogo institucional seja por meio das políticas públicas e do reconhecimento das pautas e manifestações desse público. Ela afirma que há muita fake news e “muita lavagem cerebral” que precisam ser combatidas,citando notícias falsas de que,se eleito,Lula fecharia igrejas —o que nunca ocorreu.
Ela diz ainda que não acredita que espaços de fé devam ser usados como estratégia eleitoral,mas reconhece que há um desafio para “estreitar ainda mais essa relação” do governo com esse público.
— É assim que se constrói uma relação verdadeira: respeitando as religiões,sem instrumentalizá-la eleitoralmente; dialogando com as igrejas,sem transformar o púlpito em palanque; e mostrando,com fatos,que as políticas públicas podem melhorar diretamente a vida também da população evangélica— afirma.

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