
Maracanã — Foto: Guito Moreto
O jornalista Ariel Palacios lança nesta quinta-feira (20),em São Paulo,seu almanaque futebolístico,este “Futebol lado B”,um compêndio de 312 páginas de curiosidades sobre o esporte mais popular do Brasil e do mundo. Com muito humor e uma extensa pesquisa,Palacios conta histórias conhecidas,como a origem do gol olímpico e sua relação com a Celeste Olímpica,como é chamada a seleção uruguaia,e chega até às relações dos intelectuais com a pelota. O livro viaja pelo planeta em seus temas,mas o futebol brasileiro,é claro,tem o destaque merecido,com anedotas e histórias sobre times que fascinam a nação que tenta o hexacampeonato. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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“Tudo o que sei com mais certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo ao futebol”. A frase de Albert Camus,escritor,filósofo e ex-goleiro do Racing Universitário de Argel — além de jogar em outras posições — ilustra bem o que boa parte da Humanidade pensa a respeito daquela bobagem de 22 marmanjos correndo atrás de um objeto esférico,com um sujeito de preto soprando um apito e ouvindo impropérios no meio. Em tempos de Copa do Mundo,com seu inevitável e deficitário (para os colecionadores) álbum de figurinhas,o jornalista Ariel Palacios lança nesta quinta-feira (20),um compêndio de 312 páginas de curiosidades sobre o esporte mais popular do Brasil e do mundo.
Sim,ele mesmo,“de Buenos Aires,Ariel Palacios”,aquele jornalista da Globonews de sotaque porteño,nascido em terras maradonianas e criado no Brasil,sempre elegante,de gravata,colete e lenço no bolso,e fluente em diversos assuntos,um deles,o futebol — sobre o qual ele versa mais em suas aparições no Sportv.

Jornalista Ariel Palacios — Foto: Arquivo Pessoal
Com muito humor (às vezes um tanto “tio do pavê”,o que não deixa de ser adequado à filosofia do ludopédio) e uma extensa pesquisa,e chega até às relações dos intelectuais como Albert Camus,Pier Paolo Pasolini e George Orwell com a pelota,sem esquecer Shakespeare.
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Quem? William Shakespeare? Mas o futebol na Inglaterra,onde foi inventado,não data de fins do século XIX? E o bardo de Stratford-upon-Avon não viveu séculos antes,entre 1564 e 1616? Sim,é verdade,mas Palacios prova que,ainda assim,o dramaturgo falou em futebol em duas de suas mais famosas peças,“Comédia dos erros” (1594) e “Rei Lear” (1606).
Pois é,o livro esclarece isso tudo: primeiro,vários povos já chutavam bolas (ou objetos semelhantes,como as cabeças dos inimigos) ou as controlavam sem as mãos,com o objetivo de atirá-las a algum alvo,muito antes da formalização dos britânicos — a partir de 1870,por aí. Na própria Terra da Rainha,versões antigas do esporte eram disputadas tempos antes,a ponto de o puritano Oliver Cromwell,que entre 1653 e 1658 foi 1º Lorde Protetor da Comunidade da Inglaterra,Escócia e Irlanda,uma espécie de primeiro-ministro da época,proibir que as bexigas de porcos e outros ancestrais da redonda fossem chutados em campos pelas ilhas. Quando a monarquia voltou ao poder,o rei Charles II — sim,o antecessor de Charles III reinou mais de 300 anos antes dele — logo revogou as proibições de Cromwell,tornando o tataravô do futebol novamente legal entre os ingleses,escoceses e irlandeses.
História? Geopolítica? Sim,essas são duas das ciências mais presentes no livro de Palacios,que lembra que países hoje mortos foram potências no futebol,como a Iugoslávia e a Tchecoslováquia,desmembradas após o fim da Cortina de Ferro,nos anos 1990.
Nesse aspecto,Palacios viaja por um caminho semelhante ao de “Como o futebol explica o mundo: Um olhar inesperado sobre a globalização” (Ed. Zahar,2005),do jornalista americano Franklin Foer,outro livro recomendado a quem tenta entender o mundo através do rude esporte bretão (ou asteca,ou chinês...). Só que o livro de Foer,além de focar mais no tema geopolítico — traz uma crônica interessantíssima da separação da Iugoslávia em Croácia,Sérvia,Montenegro e outros países,e a relação disso com o futebol — não tem o humor e a leveza de grande parte do texto de Palacios,que pode ser recomendado a todas as idades.
O jornalista aborda também os apelidos dos times (como o Tubarão,esquadrão do coração de Palacios,o Londrina Esporte Clube,curiosamente chamado pelo nome do predador das águas,mesmo sendo de uma cidade distante do mar,ao norte do Paraná; não confundir com outro Tubarão,este um time catarinense,da cidade de... Tubarão).
O almanaque tem de tudo. Quem achar que os apelidos dos times como Verdão,Azulão e Furacão são bobagem pode pular para Jean-Paul Sartre,que,genial,disse que “o futebol é um jogo simples,complicado pela presença do time adversário”; quem achar a filosofia muito retranqueira e preferir um jogo mais aberto,pode ir a momentos mais lúdicos,como a lista de estádios em terrenos íngremes,sobre as águas ou o Tatran,estádio de Cierny Balog,na Eslováquia,onde o jogo é interrompido quando passa um trem pelo gramado. Tem para todo mundo.
O livro viaja pelo planeta em seus temas,com anedotas e histórias sobre times que fascinam a nação que tenta o hexacampeonato.
E aqui vai um spoiler: você sabia que Lamartine Babo (1904-1963) compôs os hinos dos quatro grandes times do Rio,além do América (este,um plágio de “Row row row”,dos americanos — no sentido nacional — William Jerome e Jimmie V. Monaco,mas isso Palacios,fã de Lalá,deixa passar)? Sabia,é claro. Mas talvez não soubesse que o autor de “O teu cabelo não nega” também fez marchas para outros seis times,como Bangu (“A torcida reunida até parece a do Fla-Flu”),Bonsucesso,Olaria e Madureira. Pois é. Há coisas sobre o futebol (e a vida) que só Ariel Palacios revela.
O jornalista lança “Futebol lado B” nesta quinta-feira (20),às 19h,na Livraria da Vila (Shopping Morumbi,em São Paulo); dia 26,19h,na Livraria da Vila do Brasília Shopping; e dia 28 na Livraria da Travessa,no Shopping Leblon,no Rio,também às 19h.
‘Futebol lado B’
Autor: Ariel Palacios. Editora: Globo Livros. Páginas: 312. Preço: R$ 74,90. Cotação: Bom.

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