Ramagem é considerado foragido da Justiça brasileira após fugir do país — Foto: Márcia Foletto

Ramagem é considerado foragido da Justiça brasileira após fugir do país — Foto: Márcia Foletto
GERADO EM: 13/04/2026 - 22:35
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Foragido após ser condenado a 16 anos de prisão pela trama golpista,o ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ) foi detido ontem pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) dos EUA,responsável por deportações em massa durante o segundo mandato de Donald Trump. A informação foi confirmada pela Polícia Federal (PF),que disse ter cooperado com as autoridades americanas,e pelo próprio ICE,que mostra em seu site os dados do ex-parlamentar como custodiado.
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Ramagem foi sentenciado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no ano passado,mas fugiu para Miami,na Flórida,em setembro,onde se estabeleceu com a família antes da decretação da prisão. Embora o Brasil venha tentando extraditá-lo para cumprir pena,o processo iniciado nos EUA em decorrência da detenção pelo ICE pode resultar na expulsão sumária do ex-deputado do país,em uma prática que se tornou mais frequente a partir da política migratória do presidente americano.
Homem de confiança do ex-presidente Jair Bolsonaro,o ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) saiu do Brasil pela fronteira de Roraima com a Guiana,de onde embarcou de avião para os EUA. No percurso,teria utilizado documentos falsos.
“A prisão decorreu de cooperação policial internacional entre a Polícia Federal e autoridades policiais dos EUA. O preso é considerado foragido da Justiça brasileira após condenação pelos crimes de organização criminosa armada,golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado de Direito”,informou a PF.
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Para viabilizar o retorno ao Brasil,a PF se concentrou na condição ilegal de Ramagem no exterior,o que pode facilitar a deportação,como detalhou a colunista do GLOBO Míriam Leitão. Às autoridades americanas,a corporação relatou se tratar de brasileiro foragido que,por decisão judicial,teve o passaporte cancelado. A partir da troca de informações,foi constatado que,mesmo sem a validade do documento,Ramagem usou a identificação para alugar um carro.
A cooperação entre os dois países prevê o trabalho de agentes do ICE em solo brasileiro e de oficiais da PF nos EUA. Um interlocutor da PF relata que a corporação trabalha na checagem de brasileiros deportados ao Brasil e,a cada avião com os imigrantes expulsos,ao menos “duas ou três” pessoas têm mandado de prisão pendente.
Um documento do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS,na sigla em inglês) obtido pelo portal Metrópoles mostra que o ex-deputado também estava com visto expirado e,por isso,sujeito a deportação. O órgão afirma que Ramagem teve a entrada admitida de forma legal nos EUA,mas que o seu visto,chamado B2,para turistas,só permitiria a permanência até 10 de março.
Segundo a PF,a família do garimpeiro Rodrigo Martins de Mello,mais conhecido como Rodrigo Cataratas,desempenhou “papel de protagonismo” na fuga do ex-deputado federal. Ele,a mulher Priscila de Mello e o filho Celso Rodrigo de Mello viabilizam a estadia de Ramagem em um condomínio de luxo nos Estados Unidos e teriam colaborado para que ele obtivesse documentos falsos.
Ontem,aliados de Ramagem tentaram minimizar a situação. De acordo com o influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo,que mora nos Estados Unidos,Ramagem foi detido “após uma abordagem policial em Orlando,inicialmente por uma infração leve de trânsito e,na sequência,encaminhado ao ICE — procedimento comum na Flórida”.
“Essa é,neste momento,uma questão meramente imigratória. Porém,o status de Ramagem é LEGAL: ele possui um pedido de asilo pendente,protocolado há tempos e ainda sob análise,o que lhe permite permanecer legalmente nos Estados Unidos até a decisão final do caso — que é demorada,mas tem tudo para ser deferida”,escreveu Figueiredo nas redes sociais.
Figueiredo citou a expectativa de que o ex-deputado seja liberado. “O trâmite do ICE também é burocrático e depende da formalização no sistema do órgão para que os próximos passos sejam dados nesta direção”,completou.
Postagens similares foram compartilhadas pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro,que também está nos EUA,e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ),pré-candidato à Presidência. “Tenho convicção de que as autoridades americanas reconhecerão a validade desse pedido (de asilo) e entenderão que Ramagem é mais um dos perseguidos políticos vítimas da mesma narrativa estapafúrdia que levou à prisão do meu pai”,sustentou Flávio.
Já o líder do PL na Câmara,Sóstenes Cavalcante (RJ),criticou diretamente a PF ao rejeitar a hipótese de cooperação internacional no caso. Ele buscou tratar a situação de Ramagem como rotina administrativa,descartando até mesmo o uso da palavra “prisão” para se referir ao episódio.
— Foi detenção,prática muito comum nos Estados Unidos — minimizou.
No campo da esquerda,prevaleceram as ironias. O deputado Rogério Correia (PT-MG),por exemplo,criticou o que classificou como “incoerência bolsonarista” ao dizer que Ramagem “vive apoiando o ICE”,mas agora foi preso pela organização por “estar ilegal” nos EUA. O também deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) disse que,agora,espera que o ex-colega de Câmara seja deportado para cumprir a pena no Brasil.
De forma reservada,porém,até mesmo bolsonaristas admitiam ontem que pode haver relação com estadia ilegal do ex-deputado nos EUA. A avaliação é que o caso expõe fragilidade da estratégia montada por Eduardo no país.
A leitura entre esses aliados é de que a aposta no ambiente político americano — especialmente no entorno de Trump — não tem se traduzido em capacidade real de proteção ou influência quando casos concretos surgem. Além da prisão de Ramagem,citam a decisão de Trump de retirar as sanções da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes,do Supremo Tribunal Federal,logo após a condenação de Bolsonaro.
Cinco meses antes de ser preso pelo ICE,Ramagem chegou a afirmar que estava “seguro” no país com a “anuência do governo americano”. À época,ao participar do podcast do blogueiro Alan dos Santos,ele próprio também foragido nos EUA,o ex-deputado disse ainda que deixou o Brasil para que suas filhas não o vissem ser preso.
Em dezembro do ano passado,a Câmara cassou o mandato de Ramagem no mesmo dia da punição ao colega Eduardo Bolsonaro. As decisões foram tomadas pela Mesa Diretora,por atos administrativos assinados pelo presidente da Casa,Hugo Motta (Republicanos-PB),e demais integrantes da gestão,sem votação em plenário,e publicadas em edição extra do Diário da Câmara.

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