
O diretor do sindicado dos atores Duncan Crabtree-Ireland afirma que a IA ainda é uma fonte de preocupação para a categoria — Foto: Michael Tran / AFP
As negociações recentes entre estúdios e o sindicato SAG-AFTRA adotaram um tom colaborativo. As greves de 2023 ajudaram a recalibrar a relação entre as partes. O novo acordo estabelece regras rígidas para réplicas digitais e personagens sintéticos. O uso de inteligência artificial exigirá consentimento prévio e remuneração justa aos profissionais. Dubladores também ganharam proteção contra a replicação não autorizada de suas vozes em outros idiomas. Disputas sobre o uso de tecnologia serão resolvidas por arbitragem. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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Três anos após as greves que paralisaram Hollywood,os estúdios entraram em uma nova rodada de negociações contratuais com os atores adotando um tom mais construtivo — especialmente em temas como o avanço da inteligência artificial,afirmou um representante da categoria.
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“Os estúdios e as plataformas de streaming se sentaram à mesa com uma perspectiva diferente”,disse Duncan Crabtree-Ireland,diretor executivo nacional do SAG-AFTRA,sindicato que reúne mais de 160 mil profissionais do cinema,da televisão e dos videogames e é considerado o maior e mais influente do setor no mundo.
Embora as negociações do acordo — que deve entrar em vigor em julho,caso seja aprovado pelos membros — tenham sido “muito intensas”,o clima foi “muito mais colaborativo”,acrescentou o principal negociador do sindicato,em entrevista à AFP.
“Acho que as greves de 2023,embora tenham sido muito difíceis para todos nós,ajudaram a recalibrar a relação entre os estúdios e os sindicatos de forma geral”,afirmou.
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Segundo Crabtree-Ireland,as empresas do setor “agora compreendem melhor” por que a regulamentação do uso da IA “é uma prioridade enorme” para os integrantes do sindicato. Os estúdios também concordam em garantir a maior carga possível de trabalho para profissionais humanos,sob o entendimento de que “há uma qualidade única e especial na criatividade e na interpretação humanas”.
O avanço da IA já é visível em Hollywood,onde suas ferramentas vêm ganhando espaço e passaram a ser consideradas inclusive nas regras de premiações como o Oscar e o Globo de Ouro.
Embora os membros do SAG-AFTRA se sintam “mais seguros” do que em 2023,quando interromperam as atividades da indústria para exigir proteções trabalhistas,“ainda existe uma preocupação muito,muito forte em relação à IA”,sobretudo devido ao rápido avanço da tecnologia nos últimos três anos,afirmou Crabtree-Ireland.
O negociador citou o caso de Tilly Norwood,personagem criado por inteligência artificial pela produtora britânica Particle6,que provocou apreensão entre atores de carne e osso ao estrear,em 2025,em um curta-metragem divulgado nas redes sociais.
O novo acordo trabalhista não fecha as portas para a IA,mas estabelece novas regras para o uso de personagens sintéticos e réplicas digitais.
Os chamados sintéticos,como Norwood,são personagens criados por IA “sem base em uma pessoa real,mas a partir dos dados com os quais esse sistema foi treinado”,explicou Crabtree-Ireland.
Já a segunda categoria diz respeito ao uso da tecnologia “para replicar um intérprete real,vivo ou que já tenha morrido”,acrescentou.
É o caso da versão gerada por IA do ator Val Kilmer,morto em 2025,no filme “As deep as the grave”,cujo trailer foi divulgado neste ano.
As réplicas digitais exigem sempre “consentimento informado e remuneração justa”. Já no caso dos sintéticos,por não refletirem uma pessoa específica,não há alguém de quem se possa pedir autorização ou a quem seja necessário pagar,observou Crabtree-Ireland.
O acordo estabelece que os sintéticos “serão utilizados apenas em casos extremos ou circunstâncias incomuns nas quais possam agregar valor significativo à produção”,esclareceu.
Eventuais disputas terão de ser resolvidas por arbitragem — um processo que,“embora não equivalha exatamente a uma proibição total,funciona como um forte desestímulo ao uso de sintéticos”.
Outra proteção conquistada envolve a dublagem: o acordo busca impedir que a voz do ator principal de um filme seja replicada em outros idiomas sem consentimento — algo que profissionais da dublagem em diferentes países veem como uma ameaça direta à própria fonte de renda.

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