
Valeska Zanello — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo
GERADO EM: 29/06/2026 - 18:57
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O remendo num quadro que pertenceu aos avós maternos de Valeska Zanello guarda segredos do savoir-faire feminino na sobrevivência ao patriarcado. Durante uma viagem a trabalho do marido,sua avó cedeu ao desejo dos filhos de fazer uma festa em casa,sem a permissão do provedor. No manejo dos objetos para a arrumação,um prego furou a tela. “Para disfarçar,ela colocou um esparadrapo e pintou uma araucária ao lado de uma árvore que já estava lá”,recorda a professora do departamento de Psicologia da Universidade de Brasília,explicando a imagem escolhida para a capa de seu primeiro livro,“Saúde mental,gênero e dispositivos”,publicado em 2018. “Meu avô nunca descobriu. Sinto-me herdeira dessa mulher,uma gênia do cotidiano,e de outras que deixam os homens lidarem com os próprios buracos.”
A metáfora do remendo não surge por acaso. Há duas décadas ocupa um lugar central no trabalho clínico e acadêmico de Valeska. Foi a partir da análise de vazios e espaços preenchidos que a acadêmica cunhou a teoria que viria a alcançar o topo das paradas no mercado editorial brasileiro,com cerca de 65 mil vendas,e o livro “Prateleira do amor e dispositivo amoroso”,recém-lançado pela editora Calon.
A ideia da “prateleira do amor” procura explicar o sofrimento feminino em relacionamentos,tratando a questão não como má sorte ou dedo podre,mas uma estrutura construída social e culturalmente que objetifica a mulher. “Criei essa metáfora para entendermos como terceirizamos nossa autoestima e permitimos que o olhar masculino nos valide”,explica a psicóloga.
Ou seja,é como se as mulheres estivessem sempre dispostas numa prateleira à espera de serem escolhidas por um homem. Dinâmica que ainda ganha contornos estéticos: “Quanto mais desejável do ponto de vista masculino,melhor o lugar na prateleira. Nos grupos de WhatsApp deles,as fora do padrão são rejeitadas e fetichizadas,viram ‘lanchinhos da madrugada’”,comenta Valeska. “Por isso,muitas vezes,toleramos problemas conjugais,temos receio de voltar à vitrine e acabar encalhando. Nem mesmo as ‘bem colocadas’ agora estão salvas,porque o tempo passa e elas envelhecem.”
E como essa teoria interfere na vida sexual? “Há uma pesquisa que fala sobre a falta de desejo da mulher após um ano de relacionamento,quando raramente conseguem ocupar um lugar ativo. Esperam que eles as excitem mas,além disso,os caras estão transando mal. São preguiçosos nas preliminares,pouco criativos,um negócio horroroso”,diz Valeska. “Meu conselho é sempre procurar explorar o próprio corpo. Esperar que um homem descubra o que vai lhe dar prazer é colocar sua vida na mão de outro.”
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Marcela Ceribelli,fundadora da plataforma Obvious,afirma que a autora é parte fundamental da história de seu podcast,“Bom dia,Obvious”. “Aprender com essa mulher é revolucionário. Existe vida antes e depois de entender a metáfora da ‘prateleira do amor’. Ganhei nova lente de questionamento para padrões amorosos e entendi muitas das minhas frustrações e de ouvintes.”
Mas há quem discorde das colocações de Valeska. A concepção de gênero da autora é criticada nas redes por membros da comunidade LGBTQIAP+. Jaqueline Gomes de Jesus,professora Doutora de Psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro e primeira mulher trans a receber o Diploma Bertha Lutz do Senado Federal,está atenta às polêmicas e analisa que o problema não reside na teoria da autora,mas na prática. “Acho importante como ela trabalha o dispositivo de conjugalidade,essa ideia de que os homens aprendem a ser eficientes e a gostar de diversas coisas,enquanto as mulheres aprendem só a gostar de homens”,comenta a especialista. “Mas a ‘prateleira do amor’ não reserva a mulheres negras,trans e com deficiência um lugar pior de acesso,ela as ignora completamente. A metáfora serve a pessoas com um capital afetivo construído em cima da branquitude,do capacitismo e da transfobia.”
Valeska concorda que há um supermercado de preconceitos,mas afirma que amelhor forma de combatê-lo é com a ciência e com diálogo.

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