
O presidente dos EUA,Donald Trump (à direita),reúne-se com Mark Rutte,secretário-geral da Otan,no Salão Oval da Casa Branca,em Washington,em 24 de junho de 2026 — Foto: Alex Kent / The New York Times
GERADO EM: 07/07/2026 - 18:02
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Os líderes europeus chegam à cúpula da Otan deste ano,em Ancara,sob a percepção de que a aliança enfrenta um momento de risco. Eles querem manter o presidente dos Estados Unidos,Donald Trump,e Washington profundamente engajados na Otan,mas passaram a aceitar que a aliança está mudando — e que dependerá muito menos dos americanos para a defesa convencional da Europa.
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O governo Trump deixou claro que está retirando tropas e capacidades militares do continente europeu para reforçar o poder militar dos EUA no Oriente Médio e na região do Indo-Pacífico,onde a China se tornou uma rival estratégica de Washington.
Os governos europeus querem garantir que a transição para o que muitos chamam de "Otan 3.0" ocorra da forma mais coordenada possível. O objetivo é assegurar que as lacunas deixadas pelos americanos possam ser preenchidas,ainda que de maneira imperfeita,reduzindo a vulnerabilidade do continente diante de uma Rússia mais agressiva e militarizada.
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Os riscos do momento foram reforçados pelo teste realizado pela China,na segunda-feira,de um míssil balístico de longo alcance — o primeiro lançamento desse tipo em quase dois anos — e por mais um grande ataque russo com mísseis e drones contra Kiev.

Da esquerda para a direita: o primeiro-ministro do Reino Unido,Keir Starmer,o presidente dos EUA,e o secretário-geral da Otan,Mark Rutte,durante uma reunião na Cúpula da Otan de 2025,realizada em Haia,nos Países Baixos,em 25 de junho de 2025 — Foto: Haiyun Jiang / The New York Times
Espera-se que os líderes da Otan reafirmem o apoio à Ucrânia,com os membros da aliança,excluindo os EUA,comprometendo-se a fornecer US$ 80 bilhões (cerca de R$ 412 bilhões) neste ano e no próximo. O presidente ucraniano,Volodymyr Zelensky,participará do encontro para reforçar seu pedido por mais sistemas de defesa aérea contra os ataques russos.
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O secretário-geral da Otan,tenta equilibrar duas prioridades: pressionar os países europeus a investirem mais em segurança e,ao mesmo tempo,evitar que Trump abandone a aliança.
— Daremos vida ao conceito da Otan 3.0: uma Europa mais forte dentro de uma Otan mais forte — afirmou Rutte na semana passada.
Mas,segundo autoridades europeias de alto escalão,a realidade pelos próximos anos será a de uma Europa gradualmente mais forte dentro de uma Otan mais fraca. Haverá menos tropas americanas,menos capacidades tecnológicas fornecidas pelos EUA e dúvidas sobre a disposição de Trump em socorrer a aliança em todas as circunstâncias,enfraquecendo o efeito de dissuasão militar.
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Em entrevista,o ministro das Relações Exteriores da Polônia,Radoslaw Sikorski,traçou uma evolução histórica da aliança desde sua criação após a Segunda Guerra Mundial.
— A Otan 1.0 foi uma defesa clara contra a agressão e o expansionismo soviéticos. A Otan 2.0 foi a busca por um propósito após a Guerra Fria — explica.
Segundo ele,nesse período,a aliança voltou sua atenção para fora da América do Norte e da Europa e,especialmente,após os atentados de 11 de setembro,concentrou-se no combate ao terrorismo no Afeganistão e no Oriente Médio.
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A Rússia chegou a ser vista como uma possível parceira e deixou de ser considerada uma ameaça prioritária. Alguns membros europeus da Otan,segundo Sikorski,praticamente se desarmaram.
Mas a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022,o aumento das ambições chinesas e a decisão dos EUA de deslocar recursos para a Ásia mudaram o cenário.
— A Otan 3.0 significará que a Europa assumirá uma parcela maior da defesa convencional,enquanto os EUA atuarão mais como um aliado de apoio decisivo em caso de necessidade — afirma.
O tempo para essa adaptação pode ser curto. Autoridades alemãs e da própria Otan avaliam que uma Rússia fortalecida pela guerra poderá estar pronta para enfrentar a aliança até 2029. Isso aumenta a pressão para que a Europa amplie sua capacidade de prontidão militar e para que os EUA não criem vulnerabilidades adicionais durante o processo de transição.
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Em Ancara,Trump e seus assessores devem continuar pressionando os aliados a aumentarem os gastos militares e cumprirem a meta acordada no ano passado de investir 5% do Produto Interno Bruto em defesa até 2035.
O embaixador americano na Otan,Matthew Whitaker,alertou recentemente que os países que cumprirem suas obrigações poderão ser beneficiados,enquanto aqueles que ficarem para trás enfrentarão dificuldades.
Durante algum tempo,os europeus acreditaram que as ameaças americanas de reduzir sua participação na Otan desapareceriam,como ocorreu no primeiro mandato de Trump. Agora,porém,aceitam que Washington fala sério e que precisam assumir mais responsabilidades por interesse próprio.
— Está muito claro que o papel dos EUA está mudando — observa Claudia Major,especialista em segurança transatlântica do German Marshall Fund.
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Segundo ela,a principal expectativa dos europeus é limitar danos e obter previsibilidade.
— Essa mudança pode ser moldada,mas não evitada — afirma.
As principais dúvidas são a velocidade com que Washington reduzirá seu apoio e a rapidez com que a Europa conseguirá responder.
Na cúpula da Otan de 2022,em Madri,a aliança passou a exigir de seus membros quantidades específicas de equipamentos e efetivos militares,além da capacidade de deslocá-los rapidamente para determinados pontos em caso de guerra.
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Esses requisitos foram elaborados pelo então comandante supremo das forças aliadas na Europa,o general americano Christopher G. Cavoli. No entanto,eles precisarão ser revistos após o anúncio de cortes de tropas e da retirada de equipamentos estratégicos dos EUA,como aviões-tanque para reabastecimento aéreo e caças.
Trump tem se mostrado frequentemente crítico à Otan. Já classificou a aliança como um “tigre de papel” e afirmou que os aliados não o apoiaram quando ele buscou ajuda durante a guerra contra o Irã.
O secretário de Defesa dos EUA,Pete Hegseth,adotou um tom ainda mais duro e anunciou uma nova revisão da presença militar americana na Europa ao longo dos próximos seis meses.
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Rutte dedicou a terça-feira,primeiro dia da cúpula,a um fórum da indústria de defesa transatlântica para destacar os laços entre os dois lados do Atlântico. O jantar dos líderes ocorreu na mesma noite. Nesta quarta-feira,os chefes de Estado e de governo participam de uma sessão matinal seguida de entrevistas coletivas.
Embora o encontro deva ser marcado por discursos otimistas sobre gastos militares e compras de equipamentos,autoridades reconhecem que há preocupações significativas nos bastidores.
Exércitos europeus enfrentam falta de pessoal. O Exército britânico,por exemplo,possui atualmente menos de 70 mil militares profissionais em serviço ativo,seu menor contingente desde a Batalha de Waterloo,em 1815.
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Os orçamentos também estão pressionados. Não está claro quando grandes países,além de Alemanha e Polônia,conseguirão atingir a meta da Otan de investir 3,5% da renda nacional em necessidades militares centrais e outros 1,5% em áreas relacionadas,como infraestrutura ferroviária e serviços de emergência para situações de guerra.
Mesmo quando essas metas foram aprovadas na cúpula do ano passado,os aliados rejeitaram um pedido de Rutte para alcançá-las até 2029,insistindo no prazo de 2035.
O fortalecimento do chamado pilar europeu da Otan exigirá tempo. Não se trata apenas de aumentar gastos,mas de desenvolver,adquirir e integrar sistemas sofisticados que os EUA talvez deixem de fornecer. Entre os recursos considerados mais importantes estão mísseis terrestres de longo alcance,sistemas de defesa aérea,satélites e estruturas de coordenação de inteligência.
Rutte também argumenta que é essencial que Washington continue oferecendo o principal elemento de dissuasão nuclear da aliança — o chamado “guarda-chuva nuclear” — para enfrentar ameaças vindas da Rússia ou de qualquer outro país.


Segundo Matthew Kroenig,ex-funcionário do Pentágono e atualmente integrante do Atlantic Council,mesmo em uma Otan 3.0 a liderança americana continuará indispensável.
— Ainda será necessária a liderança dos EUA,suas capacidades militares de ponta,sua dissuasão nuclear e presença convencional suficiente para demonstrar que o país continua comprometido com a aliança — destaca.
Para ele,existe uma ligação direta entre a presença de tropas americanas na Europa e a credibilidade do compromisso nuclear dos EUA.
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Se poucos soldados americanos permanecerem no continente,as dúvidas sobre a disposição de um presidente dos EUA em recorrer à dissuasão nuclear tendem a crescer.
Outra questão fundamental envolve a estrutura de comando da Otan. A aliança foi construída sob a liderança de um comandante supremo americano,que também exerce autoridade sobre as tropas dos EUA estacionadas na Europa.
Segundo Camille Grand,ex-dirigente da Otan e atual diretor da principal associação da indústria de defesa europeia,embora existam generais competentes no continente,não há um comando europeu unificado,já que cada militar responde,em última instância,ao seu respectivo governo nacional. Por isso,ele defende que o comando geral da aliança continue nas mãos de Washington.
— Se restar apenas um soldado americano na Europa,ele deve continuar subordinado ao comandante supremo americano — ressalta.
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O Pentágono parece concordar com essa avaliação. As discussões sobre a possibilidade de um comandante supremo francês ou alemão praticamente desapareceram. Mas permanecem dúvidas sobre como a Europa reagiria se os EUA reduzissem drasticamente sua participação.
— Como esses países trabalhariam juntos na defesa? — questiona Max Bergmann,do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). — Essa é uma questão política extremamente importante que os europeus estão enfrentando,porque o que vemos hoje não é muita cooperação em defesa dentro da Europa.
E,caso surja uma crise com tropas russas concentradas na fronteira da Otan e os americanos menos presentes,como os europeus organizariam uma resposta unificada? Para Grand,a transformação da aliança é inevitável.
— A Otan vai evoluir e se reformar,e é saudável sermos mais honestos sobre isso. A questão é saber se teremos uma transição organizada ou uma retirada abrupta de capacidades importantes. Isso precisa ser algo que façamos juntos — afirma.

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