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Queimadas na Amazônia aumentam em 23% as internações por causas respiratórias, mostra estudo

Queimadas na Amazônia — Foto: Michael Dantas/AFP

RESUMO

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GERADO EM: 23/07/2026 - 20:31

Queimadas na Amazônia elevam internações e exigem ação integrada

Estudo revela que queimadas na Amazônia aumentam internações respiratórias em 23% e cardiovasculares em 21% no Brasil,preocupando em ano de El Niño. Pesquisadores da UFG destacam impactos na saúde e criticam falhas em políticas públicas para combater desmatamento e queimadas. Poluição atinge até grandes centros urbanos,afetando principalmente crianças e idosos,e exige ações integradas.

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O fogo das queimadas e dos grandes incêndios em áreas naturais consome florestas,campos e a saúde do brasileiro. Nos dias de queimadas mais intensas na Amazônia,por exemplo,há um aumento de 23% de internações por causas respiratórias e 21% por cardiovasculares em todo o Brasil,alertam cientistas.

O dado está numa revisão da literatura científica sobre o tema publicada esta semana e surge num momento em que se adverte que um El Niño muito forte deve atingir o país no segundo semestre deste ano e,com ele,o aumento do risco do fogo.

A mesma análise destaca ainda que,em anos de seca intensa,estima-se que até 10% das mortes prematuras por poluição do ar no Brasil sejam atribuíveis a emissões de incêndios florestais.

Realizada por pesquisadores do Projeto de Saúde Única e Meio Ambiente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Universidade Federal de Goiás (UFG),a revisão analisou 108 artigos científicos publicados entre 1986 e 2023. Foram identificados 41 desfechos de saúde distintos associados à perda de floresta e às queimadas na região.

Por desfechos se entendem doenças respiratórias,cardiovasculares,mortes precoces e baixo peso ao nascer,explica Pedro Novaes,um dos autores do trabalho,publicado na revista Acta Amazonica.

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— Embora existam muitos estudos sobre impactos na saúde do desmatamento e das queimadas na Amazônia,não havia uma visão integrada. E mesmo assim,é preciso mais pesquisa. A visão ainda é incompleta,fragmentada. Mas fica evidente que o maior impacto direto para o brasileiro é na saúde — frisa Novaes.

E os cientistas destacam que diminuir queimadas e desmatamento tem benefícios mensuráveis de saúde. Mas,como mortes e internações se distribuem longe da fonte do fogo,isso cria uma falha estrutural. As políticas de combate a incêndio tendem a ser locais e regionais,enquanto o dano à saúde é distribuído em escala nacional e,por vezes,continental.

Na Amazônia propriamente dita os principais danos à saúde associados ao desmatamento e às queimadas se referem à malária,doença recorrente na região da floresta. Segundo um dos estudos revisados,cada aumento de 1% na área desmatada de um município da Amazônia brasileira esteve associado a um crescimento de 14,5% a 23,2% na incidência de malária.

Já a fumaça poluente das queimadas atravessa fronteiras na América do Sul e sobrecarrega sistemas de saúde de outros países.

Nos dias de chamadas “ondas de incêndio” — o pico máximo,que se refere a 1% dos dias de queima mais intensa da série histórica e de dispersão de partículas MP2,5 — ocorrem 23% a mais de internações respiratórias e 21% a mais de internações cardiovasculares em nível nacional.

Na Região Norte os percentuais são ainda maiores: 38% e 27%,respectivamente.

O dado filtra os dias extremos e os separa de queimadas que frequentemente acontecem na estação seca. Ele se atém aos episódios mais graves de fumaça e fogo combinados,que representam o pior cenário de exposição da população,explica Novaes.

É justamente nesses dias extremos (não em dias comuns de seca) que o estudo encontrou o salto de 23% a mais em internações respiratórias e 21% a mais em cardiovasculares em todo o Brasil.

Além disso,estima-se que,na época de queimadas de 2019,cerca de 5.000 mortes prematuras (10% de todas as mortes prematuras atribuídas à poluição naquele ano no Brasil) ocorreram devido à exposição à fumaça de incêndios na Amazônia.

E,segundo o estudo,caso o Brasil tivesse cumprido as metas de redução do desmatamento entre 2013 e 2020,a melhora na qualidade do ar teria evitado cerca de 2.300 mortes relacionadas à poluição do ar pelos incêndios em 2020.

Por outro lado,a pesquisa mostra que uma redução de 40% nas taxas de desmatamento (pós-2004) teria evitado cerca de 1.060 mortes prematuras de adultos por ano na América do Sul como um todo,via melhora do ar.

O desmatamento quase sempre está associado a uma queima posterior,para eliminar os remanescentes florestais que tenham sobrevivido. Portanto,o combate da destruição da vegetação é um benefício que se estende para além da própria Amazônia.

Mas calcula-se que cada quilo adicional de MP2,5 na Amazônia gera 21 novos casos de doença respiratória/cardiovascular na região. A sigla MP2,5 se refere a material particulado com diâmetro menor que 2,5 micrômetros,cerca de 30 vezes mais fino que um fio de cabelo.

Este é o poluente mais associado à fumaça de queimadas,porque é pequeno o suficiente para penetrar os pulmões e entrar na corrente sanguínea. Ele é o principal componente da fumaça de biomassa (queima de vegetação,floresta,pastagem).

A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera um limite de até 5 µg/m³. Mas durante picos de queimada na Amazônia,algumas cidades já registraram valores acima de 150–200 µg/m³ em dias críticos.

Além disso,como essa fumaça é dispersada pela atmosfera e alcança outras regiões “as áreas afetadas não são necessariamente as mesmas onde ocorrem as queimadas”. A poluição viaja e atinge populações urbanas distantes,o que complica a formulação de políticas de saúde regionalizadas.

As crianças menores de 4 anos e os idosos aparecem como os grupos mais afetados por hospitalizações associadas à fumaça,mesmo fora da Amazônia.

— É um problema de ampla escala e que impacta os grandes centros urbanos do país — diz Novaes.

Falhas no combate

O trabalho identifica falhas nas políticas públicas e diz que as mudanças no uso da terra na Amazônia são um fator crítico de vulnerabilidade à saúde pública. Os autores afirmam que há necessidade urgente de modelos analíticos integrados e políticas multissetoriais dentro da abordagem de Saúde Única (humana e ambiental). Eles destacam os seguintes pontos:

Fiscalização insuficiente: órgãos ambientais (como Ibama e ICMBio) mencionados como subdimensionados frente à extensão do território e à escala das queimadas,dificultando prevenção e resposta rápida.Descoordenação entre esferas de governo: falta de integração entre políticas federais,estaduais e municipais de combate a incêndios e de monitoramento ambiental.Lacunas no monitoramento da saúde: ausência de um sistema robusto e integrado de vigilância epidemiológica que correlacione diretamente picos de queimadas com atendimentos de saúde em tempo real.Planos de contingência tardios ou reativos: as políticas de combate às queimadas tendem a ser emergenciais (resposta ao fogo já instalado) em vez de preventivas (fiscalização do uso do fogo,alternativas ao manejo por queima).Descontinuidade orçamentária: cortes ou instabilidade de recursos destinados a órgãos de fiscalização e combate a incêndios,comprometendo ações de prevenção ano a ano.Fragilidade na comunicação de risco à população: falta de alertas claros e sistemáticos sobre qualidade do ar para orientar grupos vulneráveis em cidades atingidas pela fumaça,mesmo distantes da origem das queimadas.Falta de políticas estruturantes para populações mais vulneráveis: prevenção específica para crianças e idosos,para grupos indígenas e controle do uso de fogo como fonte de energia e na agricultura familiar.

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