
Mônica Salmaso — Foto: Divulgação / Lorena Dini
Assim como outras crianças da década de 1970,Mônica Salmaso ouviu,com bastante frequência,discos de expoentes da MPB como Milton Nascimento,Chico Buarque,Caetano Veloso e Elis Regina. Mas escutou pouco os artistas das gerações anteriores. Daí o impacto que teve a aparição de Elizeth Cardoso (1920-1990) no programa “Chico & Caetano”,da TV Globo,em 1986.
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— Ela tinha uma postura de dama: o jeito de se vestir,de se portar. Era uma figura da cantora clássica. Eu me lembro de ter tomado um susto bonito — recorda Mônica,que também se encantou pela relação de seus ídolos Chico e Caetano com a Divina. — Ela olhava para eles de um jeito muito amoroso,e eles olhavam para ela de um jeito muito respeitoso.
Quarenta anos depois,a cantora paulistana lança,pela Biscoito Fino,o álbum “Senhora das canções — Um tributo a Elizeth”. Há shows amanhã em Belo Horizonte (Sesc Palladium) e no dia 23 em Porto Alegre (Teatro Bourbon). Para chegar ao repertório do disco (também sai em CD),ouviu praticamente todas as gravações de Elizeth e,juntamente com o diretor musical Paulo Aragão,depurou a lista até fechar em 13.
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O mergulho na discografia a deixou impressionada,primeiramente,com a técnica.
— Ela é,por si só,uma das escolas do canto brasileiro — resume. — Tem a competência,a sabedoria no uso da voz. Tudo saía fácil,e você,quando trabalha com voz,sabe que não tem nada de fácil.
O segundo aspecto ressaltado é mais abstrato,embora igualmente forte.
— Nem tudo o que a Elizeth gravou eu adoro. Nem daria,é muita coisa. Mas tem ali uma cantora apaixonada pelo ofício. O que aconteceu comigo foi uma identificação imediata: isso aí é amor pela música e pela vida,é necessidade de viver — exalta.
O projeto nasceu em 2019,quando Aragão propôs a Mônica fazer algo no ano seguinte,o do centenário de Elizeth. Quando ela e os músicos já estavam ensaiando para uma série de três shows,chegou a pandemia. Realizaram uma versão on line,mas as apresentações na Casa do Choro,no Rio,e,em seguida,no Sesc Vila Mariana,em São Paulo,só aconteceram em 2022.
Depois de participar da turnê “Que tal um samba?”,com Chico Buarque,e viajar com o seu espetáculo “Minha casa”,Mônica voltou em 2025 ao tributo a Elizeth para a série Terças no Ipanema,no Teatro Ipanema. Na véspera do quarto e último show,foi gravado,ao longo de apenas um dia,o álbum que está saindo agora.
O conjunto de músicas é variado. Entre outras,há um sucesso como “Sei lá,Mangueira” (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho); um dos primeiros sambas gravados por Elizeth,“A mentira acaba” (Rui de Almeida e Arnô Provenzano); duas da dupla Tom Jobim/Vinicius de Moraes,“Canção de amor demais” e “Janelas abertas”; um destaque da parceria Baden Powell/Paulo César Pinheiro,“Violão vadio”; a joia “Noturno em tempo de samba” (Custódio Mesquita e Evaldo Rui); e até uma raríssima composição de Elizeth,“Se as estrelas falassem”.
— Acho importante cantar uma música que ela fez. É pequena,curta,doce. É um bolo que você oferece — compara Mônica.
Surpreende estarem no disco canções que não são do repertório de Elizeth. Mônica decidiu incluir duas de músicos do Rio que a acompanham no trabalho,o violonista Mauricio Carrilho (“Nossa senhora do silêncio”) e a cavaquinista Luciana Rabello (“De bem com o amor”). Ambas têm letra de Paulo César Pinheiro.
— Achei que era óbvio cantar músicas do Mauricio e da Luciana. São supercompositores. A do Mauricio tem o verso que é o título do disco,“Senhora das canções”. A da Luciana é um samba espetacular,acho que Elizeth cantaria — afirma Mônica.
Mauricio e Luciana fazem parte da história de Elizeth,pois tocaram com ela nos últimos anos de sua vida. E estão à frente,com Paulo Aragão e outros,da Escola Portátil de Música e da Casa do Choro.
— A Escola Portátil é um milagre do Rio. Oxigenou a educação da música brasileira. E a Casa do Choro é decorrência disso. Tenho uma felicidade imensa em me encontrar com esses músicos. Tem um peso tão grande quanto a homenagem à Elizeth — anima-se a cantora,que só trabalhara com eles uma vez,no início do século.
Também estão no álbum Aquiles Moraes (trompete),Teco Cardoso (flautas),Nailor Proveta (clarinete),Magno Júlio (percussão) e Marcus Thadeu (percussão).
Foram Mauricio e Luciana que apresentaram a Mônica “Carta de poeta” (Baden Powell e Paulo César Pinheiro). Ela só tomou coragem de cantá-la na gravação do disco e no último show no Ipanema.
— É das canções mais difíceis da música brasileira. E é linda — diz.
Ainda há mais uma que não veio da carreira de Elizeth. “Deixa pra lá”,de Jaime Florence (o Meira) e Augusto Mesquita,foi gravada por Isaurinha Garcia em 1945. Mônica descobriu o samba num material que lhe foi passado por Cristina Buarque e não parou de ouvi-lo numa viagem na ponte aérea.
— É muito sensacional,engraçado. Não acreditei que existia isso. Não deu para ficar de fora. E o centenário de Isaurinha foi em 2023,passou batido — justifica.
Depois da turnê com Chico,Mônica ficou muito mais conhecida. Apresentou “Minha casa” em locais grandes,mas sem incluir músicas de sucesso para,supostamente,agradar ao público.
— Não faria sentido. Tenho 55 anos,nunca não fiz o que eu acho que sei fazer. Tenho uma vida legal,não mudaria a minha vida — diz ela. — O que aconteceu de mais importante na turnê do Chico foi viver tudo aquilo: sair da pandemia,aquela eleição (de 2022,em que Lula derrotou Jair Bolsonaro)... E eu era o público no palco,ao lado do Chico. Foi tudo de uma intensidade tão gigante que nem era para fazer nada a não ser viver aquilo direitinho. Não pensava “agora vai!” (na carreira). Meu público aumentou,mas é quase uma decorrência natural.
O show em homenagem a Elizeth estará no Teatro Riachuelo,no Centro do Rio,em 4 de outubro. No próximo ano irá a São Paulo e outras cidades.

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