
Bebê recebe vacina contra sarampo — Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo
Ao longo de toda a história,as ações sociais organizadas de saúde provocaram tensões sobre a atividade política. Por exemplo,desde o século XIX,movimentos religiosos de oposição à modernidade têm se contraposto a diversos avanços na biomedicina,entre os quais a vacinação. Ainda no início do século XX,no estado de Massachusetts,nos Estados Unidos,ocorreu um dos primeiros embates legais acerca das prerrogativas do Estado em relação à obrigatoriedade de políticas vacinais. O caso conhecido como Jacobson v. Massachusetts determinou a autoridade dos estados de estabelecer a vacinação obrigatória.
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Essa questão,que permaneceu relativamente dormente,atravessou grandes embates,especialmente na última década do século XX,alcançando áreas que haviam permanecido à margem das ofensivas antivacina registradas em países como o Reino Unido e o Japão. No Brasil,onde esses movimentos eram pouco expressivos,sofreu grande alteração quando a extrema direita passou a articular tanto movimentos políticos seculares quanto movimentos religiosos. Nesse contexto,a oposição à obrigatoriedade da vacinação tornou-se uma questão central.
Desde a pandemia de COVID-19,a pesquisa A Cara da Democracia tem feito perguntas a uma amostra representativa da população brasileira sobre questões relacionadas à vacinação e à política de imunização. A partir de 2023,a pesquisa passou a investigar também a percepção da população sobre a vacinação de crianças. Em 2026,aproximadamente 20% dos entrevistados responderam que as vacinas faziam mais mal do que bem para as crianças,conforme indicado no gráfico 1 abaixo.

Vacinas fazem mais mal do que bem para crianças (2023-2026) — Foto: A Cara da Democracia
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Em 2026,a pesquisa A Cara da Democracia decidiu ampliar essa abordagem,formulando perguntas sobre os valores gerais da população,com o objetivo de identificar as percepções dos indivíduos acerca das vacinas. Nosso objetivo foi integrar o debate sobre vacina com diferentes concepções de estado e liberdade individual para entender se há,de fato,uma concepção ideológica por trás da ideia de que elas fazem mais mal do que bem. O gráfico 2 apresenta algumas dessas respostas.

Percepção sobre as vacinas — Foto: A Cara da Democracia
Apesar de elementos da polarização política no Brasil poderem até estar sendo exagerados em alguns aspectos,eles aparecem como fortemente vinculados às percepções relacionadas à vacinação. Foi expressiva a concordância com a afirmação “A decisão de vacinar deve ser uma decisão individual,sem qualquer interferência ou obrigatoriedade do governo”. Ao cruzarmos as respostas a essa afirmação com a autoidentificação ideológica dos indivíduos,percebemos variações muito significativas. De um lado,entre aqueles que concordam totalmente com essa afirmação,33% das pessoas se identificaram como de direita,enquanto a aquelas que se identificam como de esquerda ou de centro concordaram respectivamente 19% e 25%. Da mesma maneira,essa forte correlação entre a autodefinição ideológica foi encontrada entre aqueles que discordam totalmente da afirmação.
Desde a aplicação do Cara da Democracia no ano passado,os dados já apontavam para uma forte correlação entre as percepções sobre a vacinação e os fatores educacionais. Os respondentes com níveis educacionais mais baixos são os mais propensos a aderir a discursos antivacina. Na última pesquisa,acrescentamos uma nova camada de análise a essa questão,ao mostrarmos que,se as percepções sobre a vacinação estão relacionadas à educação,elas também estão associadas à forma como as pessoas consomem informações e,principalmente,à maneira como uma parcela significativa da população brasileira que se autoidentifica como de direita percebe essa questão. Observamos que a polarização quanto ao tema se torna ainda mais forte quando agregamos níveis educacionais aos respondentes.

Decisão de se vacinar por escolaridade (2026) — Foto: A Cara da Democracia
Por fim,percebemos um fenômeno surpreendente em relação aos altos extratos educacionais (ensino superior incompleto e completo) que foram os eleitores de Bolsonaro,no segundo turno de 2022. Entre eles,a ideologia antiestado supera fortemente concepções de ciência e o nível educacional. O mesmo não corre entre os eleitores do presidente Lula em 2022.
Os dados da pesquisa A Cara da Democracia indicam que a desconfiança em relação às vacinas não pode ser compreendida apenas como resultado de desinformação ou de menor escolaridade. Ela está fortemente associada a uma visão de mundo na qual a autonomia individual se sobrepõe às responsabilidades coletivas e ao papel do Estado na proteção da saúde pública. A polarização política brasileira passou a organizar também as atitudes diante da vacinação,especialmente entre segmentos da direita,onde a rejeição à intervenção estatal permanece elevada mesmo nos estratos de maior escolaridade. Esse resultado sugere que o desafio das políticas de imunização no Brasil é simultaneamente científico,comunicacional e político.
*Leonardo Avritzer é cientista político e professor aposentado da UFMG; Rômulo Paes de Sousa é pesquisador da Fiocruz e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

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