
Cinismo dispensa as máscaras sociais — Foto: Creative Commons
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Não tenho filhos,mas sou fissurado na maneira como meus amigos criam os seus. Os dilemas da parentalidade revelam os dramas pessoais de cada pai e mãe,mas também nos dão pistas sobre o espírito do tempo e para onde o mundo parece caminhar.
Semana passada,preso em um engarrafamento em São Paulo,resolvi perguntar a um amigo próximo como andavam seus rebentos. Ele é pai de um adolescente de 15 anos e de um garoto de 5. Os dez anos que separam os dois são maiores do que uma década. Aos olhos do pai,lembram um abismo.
Há tempos,o mais velho colocou de lado a ideia de que a adolescência é uma porta de entrada para a juventude. Sem pestanejar,faz de tudo para fazer do período a primeira fase da adultez. Fez do frigobar a geladeira oficial do seu mundo; das paredes do quarto,um bunker; da tela do celular,a janela para o mundo. E batalha,centímetro a centímetro,por demarcar sua autonomia e independência frente à família. Aos poucos,os pais já aceitaram que o velho mantra repetido pelos mais velhos de outrora — “você só mandará na sua vida depois de sair de casa e pagar as próprias contas” — caiu em desuso.
O mais novo causa outro tipo de desconforto para a família. Ele lembra o lendário Seu Saraiva do “Zorra Total” por conta da tolerância zero a qualquer pergunta que lhe pareça burra,sem sentido,e tem horror às convenções sociais. Mesmo sem o pleno domínio das camadas da língua,vai do literal ao cinismo com maestria e desafia a ideia que tínhamos sobre o que é a infância.
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Quando os adultos sugerem brincar com um coleguinha do clube,sério,sem arroubos de fúria,ele se nega e justifica: “Por que eu tenho que brincar com ele se não gosto dele?” Os adultos sorriem amarelo. Ele insiste: “Por quê?” E,se por acaso alguém repreender algum dos seus comportamentos,ele insiste em fazer. Diante da bronca,se justifica,com plena consciência do erro: “Eu fiz porque me deu muita vontade de fazer.”
Meu amigo contou a cena rindo,daquele riso meio orgulhoso e meio assustado,típico dos pais diante das idiossincrasias dos filhos. E eu fiquei pensando,ali parado na Marginal,que os dez anos entre os dois meninos talvez não sejam abismo nenhum. Um antecipa a autonomia,o outro dispensa a diplomacia. Vistos juntos,eles não parecem duas fases da vida. Parecem dois dialetos de uma língua nova que a gente ainda está aprendendo a ouvir.
Em “Eu mereço!: da velha hipocrisia aos novos cinismos”,a antropóloga Paula Sibilia mostra como vivíamos em um solo moral da hipocrisia e,agora,temos de conviver também com o cinismo. O hipócrita reconhece a validade pública da regra e faz o esforço de guardar as aparências. O cínico conhece a mesma regra,enxerga suas contradições,e simplesmente não vê mais razão para fingir. Assume o interesse próprio em voz alta e converte tudo em prova de autenticidade. Saímos de um mundo que mentia para preservar seus ideais e entramos em outro que dispensou os ideais para não precisar mentir.
O sinal abriu,meu amigo engatou a primeira e mudou de assunto. Fiquei com a impressão de que aqueles dois meninos,cada um do seu jeito,já sabem de algo que a gente ainda finge não saber. Não estão só preparados para o mundo que vem. Estão é impacientes com o que ficou.

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