Cientista Carlos Nobre — Foto: Gabriel Reis/Valor RESUMOSem tempo? Ferramenta de IA resume para você

Cientista Carlos Nobre — Foto: Gabriel Reis/Valor
GERADO EM: 10/04/2026 - 20:40
O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
No último dia 30 de março,o climatologista brasileiro Carlos Nobre foi escolhido pelo Papa Leão XIV para integrar o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral,uma estrutura do Vaticano que serve para aconselhar o Papa sobre temas sociais,humanitários e ambientais. A nomeação foi algo "totalmente inesperado",afirmou o cientista,que não escondeu sua vontade em descobrir como chegaram ao seu nome. Em que pese a curiosidade,o fato é que Carlos Nobre,pesquisador da USP e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza,é um dos pesquisadores mais importantes do mundo na área das mudanças climáticas,definidas por ele como "emergência climática".
Leia mais: Operação contra organização criminosa tem 39 presos,R$ 1 bilhão em contas bancárias bloqueadas e apreensão de drogas e armasBrasil: Em julgamento no STF,Flávio Dino dá segundo voto contra lei de SC que proíbe cotas raciais em universidades
Carlos Nobre ainda não recebeu contato formal do Vaticano,por isso não sabe como será o funcionamento do Conselho. Mas ele explicou ao GLOBO que pretende levar ao Papa argumentos sobre o risco da emergência climática para o desenvolvimento humano integral,com exemplos da intensificação das ondas de calor,que vitimam até 500 mil pessoas por ano,e o eminente colapso de recifes de corais,que afeta diretamente a vida dos oceanos. Único cientista sem ligação com instituições religiosas na lista de 11 nomes do Dicastério,Nobre disse que não é mais possível se basear em "visões antigas" e negacionistas,de que Deus não permitiria o planeta chegar a um nível de urgência que na prática já é visível,como demonstra a ciência.
Como você soube da nomeação? Houve alguma negociação ou contato com o senhor?
Teve o anúncio dos 11 nomes ali e eu era um dos 11 nomes. E teve o anúncio da descrição da importância desse conselho. Mas até agora eu não tive nenhum contato,direto,formal,com o Vaticano,para,por exemplo,dizer onde vai ser,quando vai ser a primeira reunião. Deve ser,imagino,no Vaticano,mas não tive esse contato. Eu sou o único cientista da área climática e ambiental daqueles 11 nomes.
Continuar Lendo
Então foi inesperado?
Foi totalmente inesperado. E na hora que eu for ao Vaticano eu vou tentar descobrir como que foi meu nome sugerido e se houve alguém que sugeriu meu nome (risos).
Sabemos que o objetivo do Dicastério é aconselhar o Papa sobre temas específicos. O que o senhor pretende levar a ele?
O que eu vou levar para discussão desse conselho é o risco que nós estamos colocando ao desenvolvimento humano e até mesmo o risco que coloca para a vida no planeta. Não só humana,mas para a vida de todas as espécies de biodiversidade em função da emergência climática. Nunca a civilização que nós temos. há 11 mil anos,enfrentou esse risco ambiental. Desses eventos climáticos extremos, o que mais leva a morte de humanos são as ondas de calor. Estão batendo recorte nos últimos anos. São cerca de 500 mil mortes por ano,e aqui no Brasi,mais de 10 mil mortes,principalmente de idosos. O desenvolvimento humano integral está em enorme risco de nós não combatermos essa gigantesca emergência climática. Quanto à flora e à fauna,o maior risco está nos recifes de corais,que estão no que chamamos de ponto de não retorno,25 % da biodiversidade do oceano depende dos recifes de corais,e vamos ter extinção de fauna e de flora nos oceanos,principalmente os tropicais. Então a ideia é trazer isso para o Papa,o risco que o planeta está vivendo
Como o Vaticano pode contribuir para essa agenda?
O Papa não é só o líder dos católicos,ele é um líder mundial,e tem uma grande influência em todo o sistema político mundial. Os Papas têm sido sempre líderes que levam assuntos importantes para discutir com presidentes de inúmeros países. Então,eu tenho certeza que o Papa Leão XIV já está muito consciente disso e,lógico,vai trazer todas essas discussões para os setores que ele é muito influente. E,claro,é também importante que todos os religiosos,católicos e deoutras religiões,percebam a emergência ambiental que nós estamos vivendo e como realmente ter uma ação de proteção, fazer o desenvolvimento humano integral, prosseguir sem risco para a humanidade,sem risco para a vida no planeta. Então eu tenho certeza que o Papa tem essa capacidade de assumir uma liderança muito grande.
Por muito tempo vigorou uma suposta ideia de que religião e ciência caminhavam separadamente. Sua nomeação muda essa relação?
Olha,eu sou cientista,não sou líder religioso. Mas,realmente,um aspecto que talvez muitas décadas,séculos atrás era defendido por religiosos é de que não haveria nenhum risco porque Deus controla tudo,conserta tudo. Há,houve e continua havendo alguns negacionistas que dizem que não temos que nos preocupar,que Deus não vai deixar o planeta atingir nenhuma emergência. Mas não é isso o que a ciência diz. Tanto é que isso já está acontecendo,como o exemplo que dei de recifes e corais,várias espécies já foram extintas,esse número gigantesco de mortes por ondas de cor. Então eu acho que certamente o Papa é um líder religioso muito preocupado com isso. Não temos mais que nos basear em visões antigas que não têm nenhuma validade.
Além da religião,há muito negacionismo entre governantes
Sem dúvida; Vamos olhar para 2020,a pandemia da Covid. Puxa vida,a ciência da saúde mostrou um risco tão gigantesco que propôs um lockdown e a maioria dos países concordou. Todo mundo usou a máscara. Mas o que aconteceu? Houve países,como o nosso,em que o presidente sempre foi anticiência e não concordou com lockdown,nem máscara,nem vacina. E a mudança climática aumenta demais o risco de epidemias e pandemias,então nós temos que combater (a emergência climática) e proteger a saúde de toda a população.
Como o combate à emergência climática se associa a outros objetivos desse Dicastério,como justiça social e paz entre os povos.
A emergência climática traz um enorme impacto à paz entre os povos,e o Papa deu uma responsabilidade muito grande de começar realmente a convencer bilhões de pessoas no mundo a não aceitarem guerras. É inacreditável que nós estamos tendo guerras,elas não zeram,aumentaram nos últimos anos. Então são aspectos muito importantes e nós temos que levar. O desenvolvimento humano integral não pode mais aceitar essa discordância que existe entre líderes políticos. Um papel importante do Papa é convencer todos os que seguem as religiões,no caso dele os cristãos,a buscar uma mega amizade com as populações. Foi uma belíssima coisa que o Papa Francisco fez em chamar,valorizar os líderes indígenas,outras comunidades da Amazônia,por exemplo. Então é muito importante que isso seja muito discutido,o desenvolvimento humano integral e a preservação de toda a vida.
O senhor mencionou a aproximação do Papa Francisco com os indígenas. Em 2019,houve o sino (reunião consultiva convocada pelo Papa) da Amazônia e o senhor participou. Como foi esse encontro?
Foram três maravilhosos dias em outubro de 2019. Foi a primeira vez que a Igreja Católica faz um Sino da Amazônia. Um ano antes,o Papa Francisco esteve na Amazônia peruana,se reuniu com um grande número de líderes indígenas das comunidades da Amazônia. Então foi a primeira vez que um Papa trouxe muito a importância de proteger a Amazônia e todos os povos amazônicos. No sino tinham vários cientistas e líderes indígenas,então foram três dias de discussão muito produtivos. Eu levei o risco que a Amazônia estava na época,e muito mais hoje,do chamado ponto de não retorno,e a busca de soluções baseadas na natureza,zerar o desmatamento,a degradação do fogo,fazer uma mega restauração florestal,valorizar os povos indígenas e quilombolas. Eu senti que o Papa gostou muito.
Será que veio daí a ideia de nomeá-lo para o conselho?
Eu acho que é muito provável que na hora que o Papa atual foi aprovar o conselho,a equipe ali trouxe para ele que eu participei. O Papa Francisco gostou muito,então eu acho até que você pode ter razão que uma das razões do Papa atual ter aprovado meu nome foi o fato de eu ter participado do Sino da Amazônia.
O contexto do Brasil buscar a liderança da agenda climática internacional também pode ter influenciado? Acabamos de ter a COP30 e a ex-ministra Marina Silva também é muito conhecida
Sem dúvida,sem dúvida. A tentativa de liderança do Brasil levou ideias muito importantes para a COP30. Aqueles dois mapas do caminho,para zerar os desmatamentos até 2030 e fazer grande regeneração dos biomas e o segundo para acelerar o caminho de zerar o uso de combustíveis fósseis. Então,sem dúvida,isso são aspectos muito importantes. O Brasil buscar combater a emergência climática pode ter sido um dos fatores de eu ter sido escolhido.

© Hotspots da moda portuguesa política de Privacidade Contate-nos