
Rafaella Steenhagen,de 28 anos,entre os pais: mesmo com ensino superior,ela não tem condições de ter sua casa e voltou a estudar — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo
GERADO EM: 06/06/2026 - 16:15
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Rafaella Steenhagen,é formada em Relações Internacionais,mas não atua na área. Fluente em quatro idiomas,trabalha como assistente administrativa. Apesar de empregada,não teve o retorno financeiro que esperava do grande investimento que fez em educação. O mal-estar aumenta quando ela compara sua situação financeira com a dos pais,ambos advogados.
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Ela se vê distante do que eles já tinham conquistado perto dos 30 anos,a começar pela casa própria para criar dois filhos. Solteira,Rafaella ainda mora com os pais e usa essa base para sua nova jornada universitária: está cursando Direito.
— Eu me sinto frustrada quando vejo que ainda não alcancei o padrão de vida e a estabilidade que planejava,apesar de trabalhar em uma ótima empresa,que oferece salário e benefícios acima do mercado para a função em que atuo — diz. — É como se diz nas redes sociais: na minha vez de ser adulto,está tudo bem mais caro do que há 30 anos. Apesar de eu ter tido maior acesso a educação e tecnologia,meus pais tiveram mais conquistas financeiras na minha idade.
A decepção de Rafaella é comum entre brasileiros na faixa dos 30 anos,em todas as classes. A educação avança,mas a renda não cresce o suficiente para que eles superem o padrão de vida dos pais. A sensação de não sair do lugar é respaldada por números.
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Um estudo realizado pelos pesquisadores do Insper Daniel Duque,Michael França e Fillipi Nascimento comparou a situação econômica e o acesso a bens das gerações X (nascidos entre 1965 e 1980 ) e Millennial (de 1981 a 1996 ) no Brasil aos 30. Concluiu que a geração que chega à fase adulta agora tem renda maior que a anterior nessa idade,mas o avanço é aquém do esperado e insuficiente para que os trabalhadores se sintam num degrau acima.
Para a análise,os pesquisadores isolaram um grupo de integrantes da geração X nascidos entre 1967 e 1969 e outro de Millennials no intervalo entre 1992 e 1994. Então compararam dados socioeconômicos por faixa de renda dos dois grupos aos 30,idade que o primeiro atingiu entre 1997 e 1999,e o segundo,entre 2022 e 2024. Dos mais pobres aos mais ricos,nenhum segmento de Millennials teve alta da renda acima de 2% ao ano em relação à geração anterior.
Os maiores avanços foram na base da pirâmide social,principalmente entre os 25% mais pobres. Nessa faixa,Millenials tiveram um avanço de 2% ao ano em média. Já entre os 5% mais pobres,o avanço anual ficou em torno de 1,3%.

Inércia intergeracional — Foto: Criação O Globo
Na classe média alta,os ganhos foram ainda menores. Entre os 25% mais ricos,a renda cresceu menos de 0,5% ao ano,enquanto nos 10% mais ricos o avanço foi próximo de zero. Por outro lado,quando se isolam os 5% no topo,há alguma diferença: melhora pouco acima de 0,5% ao ano.
Para Duque,um dos autores do estudo,a variação em geral é pequena,retrata a baixa mobilidade social no país. Mesmo os grupos que tiveram maior avanço na renda não conseguiram mudar de status,e a evolução de seu nível de consumo foi menor que o previsto.
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Segundo o pesquisador,para haver mobilidade efetiva entre gerações,seria necessária uma alta em torno de 3% ao ano — variando entre 2% e 4% — na comparação da renda de X e Millennials,acompanhada por um avanço nas camadas mais baixas em ritmo ao menos duas vezes o observado entre os mais ricos da geração anterior. A estagnação tem relação com os ciclos econômicos do país,explica Duque:
— Nesse período,entre a fase adulta da geração X e a dos Millennials,passamos por vários momentos de crise no mercado de trabalho,tanto a crise de 2015 e 2016,quanto a pandemia,e tudo isso comprimiu muito os rendimentos.
Além da conjuntura,Duque ressalta que há questões estruturais que impedem maior mobilidade socioeconômica entre as gerações no Brasil,o que explica a frustração atual. Presidente do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) e colunista do GLOBO,Paulo Tafner concorda.
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O economista defende políticas públicas para dinamizar a economia e fortalecer a competitividade das indústrias brasileiras no mercado global,como forma de impulsionar o crescimento do país e,consequentemente,a mobilidade:
— O nosso processo econômico não está sendo capaz de gerar mobilidade social e eliminação da pobreza. Significa que temos que fazer um esforço monumental de transferir renda. Mas o melhor jeito é no processo de desenvolvimento econômico,ter oportunidades para todo mundo.
Para Bruno Imaizumi,economista da 4intelligence,o Brasil dá menos atenção que deveria a reformas estruturais para elevar a produtividade e a renda e melhorar as perspectivas das próximas gerações:

Perto dos 30,Rafaella Steenhagen é formada em Relações Internacionais e fala quatro idiomas. Apesar de ter estudado mais que os pais,ela ainda vive com eles porque não conseguiu um trabalho equivalente à graduação e não tem uma renda suficiente para ter o próprio apartamento — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo
— Não adianta só melhorar a composição da economia pelo lado do trabalho. Deveríamos estar olhando pelo lado do capital,do investimento,das tecnologias. Nisso,o Brasil peca e sempre pecou.
O economista pontua que,embora a geração X tenha vivido a hiperinflação no início dos anos 1990,quando chegou aos 30 anos o Plano Real já havia trazido estabilidade aos preços. Naquela época,a população era menor e havia menos formados no ensino superior,o que reduzia a concorrência para cargos de renda mais alta.
Ele destaca avanços em indicadores sociais e de saúde que melhoraram a qualidade de vida no país ao longo de décadas,permitindo inclusive que trabalhadores de gerações mais antigas permaneçam mais tempo no mercado.
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— Eles continuam sendo os principais nas vagas mais seniores,que tendem a ser mais bem remuneradas,não abrem espaço para que os jovens consigam se inserir como gostariam — diz o economista,para quem o acesso mais amplo ao ensino superior veio acompanhado de um descompasso entre as habilidades adquiridas e as exigidas pelo mercado de trabalho,dificultando ainda mais a inserção dos jovens.
A economia brasileira cresceu nos últimos anos e o mercado de trabalho está aquecido,mas a geração de vagas é de baixa remuneração. Imaizumi observa que mudanças nos padrões de consumo,impulsionadas pelas novas tecnologias,e o nível elevado dos preços,que não voltaram ao patamar pré-pandemia,minam o poder de compra e a qualidade de vida,ainda que,em valores absolutos,a renda tenha subido.
Ainda assim,o estudo do Insper aponta aumento do acesso a bens duráveis,como carros,motos e eletrodomésticos em todas as faixas de renda,com destaque para itens como geladeira,fogão e máquina de lavar. O avanço intergeracional foi mais forte entre as famílias de faixa intermediária de renda,onde o acesso subiu de pouco mais de 30% para cerca de 75%.
Duque explica que bens duráveis ficaram relativamente mais baratos nas últimas décadas com o avanço tecnológico e a produção em escala. Além disso,a ampliação do crédito favoreceu o acesso. Mas isso não é indicativo de um maior status social.
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— Hoje,o acesso,por exemplo,a motocicletas deixou de ser um ponto de distinção social e passou a ser quase um bem de fácil acesso — diz.
Outro aspecto é que entre os “trintões” da geração X,quanto mais alta fosse a classe,maior era a chance de morarem fora da casa dos pais. A independência residencial ia de 30% entre os de menor renda para mais de 80% entre os mais ricos,e a propriedade da casa crescia com a renda.
Entre Millennials,o padrão se inverte. Aos 30,deixar o lar da família e ter um imóvel são fatores mais prevalentes entre os de menor renda,enquanto os mais ricos tendem a ficar mais tempo com os pais,possivelmente para investir em estudos diante do alto custo de moradia. Em famílias mais pobres,a possibilidade é mais limitada,o que se torna mais um fator de desigualdade.
— Mudaram as estratégias de investimentos da vida adulta. Para as populações de renda média e os mais vulneráveis,ter moradia própria é considerado um investimento importante. Crédito e programas sociais ajudaram. Antes,quem não tinha uma renda maior não tinha acesso nem a financiamento. Não conseguiam casa própria,a não ser que construíssem do zero,o que acontecia muito — diz Duque.
Outras estruturas que impedem avanços são as desigualdades raciais e de gênero. Embora tenham diminuído,a renda dos homens brancos da geração X aos 30 anos era maior que a de todos os outros grupos identitários de Millennials hoje. Para Tafner,é reflexo da dinâmica econômica do país,moldada para manter a distinção dos grupos hegemônicos:
— O crescimento econômico não é capaz de gerar emprego e renda para aqueles que estão mais abaixo na pirâmide e há,entre os mais pobres,uma concentração maior de pardos e pretos. Então obviamente que isso vai se refletir.
*Estagiária sob supervisão de Alexandre Rodrigues

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