
Produtor Luiz Carlos Barreto — Foto: Leo Aversa / Agência O Globo
Em sua última mensagem,enviada em janeiro de 2024,Luiz Carlos Barreto expressou frustração com o governo federal ao relatar um "choque de decepção ao verificar que a indústria cultural sequer ê mencionada no plano dos economistas burocratas". Barretão teve um papel histórico na criação de pilares do cinema nacional,como a Embrafilme e a Lei do Audiovisual O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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"Reconhecido como um líder do cinema brasileiro,Luiz Carlos Barreto foi,antes de tudo,um brasileiro que lutou incansavelmente pelo Brasil.
No audiovisual,liderou a estrutura que desde o século passado tentou construir as bases do desenvolvimento de uma indústria cinematográfica. Instituto Nacional de Cinema,Embrafilme,Lei do Audiovisual,nada existiria sem sua presença destemida. No entanto,no final de sua vida,Barretão lamentava a ausência de uma verdadeira política para o audiovisual brasileiro.
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Fui com ele algumas vezes a Brasília. Falamos com presidentes,senadores,deputados,ministros,e o tom que ele imprimia nesses encontros era sempre o mesmo: exigia que os gestores públicos e parlamentares tivessem um verdadeiro compromisso com um setor que representa soberania e identidade nacionais. Por vezes,usava o humor,por vezes usava argumentação dura,fosse quem fosse o interlocutor.
Como ele dizia: meu partido é o cinema brasileiro.
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Sua paciência muitas vezes se esgotava ao perceber o quanto a cultura era e é tratada sem nenhuma visão empresarial. Mas não desistia,nunca desistia.
Em nossa última mensagem trocada,em janeiro de 2024,dois meses antes de seu acidente,ele dizia … “o candidato Lula deu ênfase em seus pronunciamentos e discursos durante sua campanha eleitoral,dizendo ser um dos seus objetivos deixar instalada,no final do seu mandato,uma 'potente indústria cultural' . Mas levo um choque de decepção ao verificar que a indústria cultural sequer ê mencionada no plano dos economistas burocratas que até hoje,em pleno século XXI,não entenderam que os conteúdos culturais formam ou deformam os hábitos e costumes dos grupos humanos da população das nações. São esses conteúdos culturais que vão decidir o grau de soberania e independência de uma nação”.
Decepção,essa é a palavra que expressa melhor o que muitos de nós,criadores e empresários do audiovisual sentimos neste momento. O audiovisual movimenta bilhões no mundo e a disputa de mercado é explícita por estar marcada pela hegemonia do cinema norte americano em todo o planeta. Sem uma politica forte e arrojada limitamo-nos a fazer filmes,mas nosso território não está disponível para eles. Limitamo-nos a criar editais que tentam abarcar a diversidade de gênero,de raça e outros,ignorando que esse desenho não pode prescindir de uma política industrial eficaz e permanente.
No palco da batalha para regular o VOD,não teremos a voz de Luiz Carlos para se somar às nossas,para nos liderar,e por isso mesmo convoco todo ou toda cineasta ou produtor/produtora,técnicos,atores e atrizes,a honrar aquele que alicerçou as bases do cinema brasileiro,somando forças na pressão e na exigência de um lugar digno e à altura da cultura brasileira.
Barretão está entre nós e dentro de nós."
Mariza Leão é produtora de cinema

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