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Atração da Flip, Maria Reva fala sobre o desafio de escrever sobre a guerra na Ucrânia, onde seu avô de 88 anos ainda vive

A escritora ucraniano-canadense Maria Reva: 'O Ocidente não tem escolha: precisa apoiar cada vez mais a Ucrânia' — Foto: Anya Chibis

RESUMO

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GERADO EM: 22/07/2026 - 16:16

Maria Reva discute impacto da guerra na Ucrânia em sua obra literária

Maria Reva,escritora ucraniana radicada no Canadá,fala sobre os desafios de escrever sobre a guerra na Ucrânia,onde seu avô ainda vive em Kherson,uma cidade arrasada pelo conflito. Em seu romance "Extinção",ela aborda a complexidade dos ucranianos falantes de russo,refutando o estereótipo de submissão feminina e enfatizando a resistência cultural e linguística do país. Reva,que participa da Flip,destaca a importância do apoio ocidental à Ucrânia e discute como a guerra moldou sua obra literária.

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A escritora Maria Reva nasceu na Ucrânia em 1989,mas vive no Canadá desde os sete anos. Apenas seu avô,de 88 anos,permanece em Kherson,cidade portuária que foi palco de intensos combates desde a invasão russa,em 24 de fevereiro de 2022. Todos os outros parentes que ainda viviam lá partiram para Kiev ou para o exterior,mas ele se recusou a ir embora. Em “Extinção”,romance que acaba de publicar Brasil pela DBA,ela incluiu um personagem um idoso que também resiste em abandonar seu apartamento,apesar dos apelos insistentes dos personagens.

— Tivemos que aceitar — diz Reva,sem esconder a tristeza pela decisão do avô.

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De Vancouver,a escritora conversou por vídeo com o GLOBO. Na próxima quinta-feira (23),ela divide o palco da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) com Andrei Kurkov,que vive em Kiev e é autor de um diário da guerra publicado pela Carambaia. Os dois vão falar sobre como o conflito transformou seus projetos literários e dos desafios de narrá-lo.

A princípio,Reva planejava escrever um romance cômico sobre o estereótipo da “ucraniana submissa” difundido no Ocidente. Sua protagonista,Yeva,é uma cientista que percorre o país resgatando caracóis ameaçados de extinção,mas se vê envolvida numa trama rocambolesca: sequestrar americanos que viajam para a Ucrânia em busca de esposas para protestar contra a objetificação das mulheres.

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Quando a Rússia invadiu o país,Reva abandonou o projeto. Mas depois decidiu retomar o livro e incluir a guerra — e a si mesma — na história. Em “Extinção”,a autora é torturada pela própria mente,que a chama de “Sra. Voz da Ucrânia” e a acusa de oportunismo por se atrever a narrar uma guerra que acontece tão longe. Nesta entrevista,Reva explicou como lida com esse dilema,rebateu o estereótipo da “ucraniana submissa” e insistiu que os ucranianos falantes de russo (como ela e sua família) não são necessariamente apoiadores de Vladimir Putin.

Pessoas se reunem ao lado de vítima de ataque aéreo russo em Kramatorsk,na Ucrânia — Foto: Iryna Rybakova/AFP

Como escrever sobre uma guerra que acontece tão longe de você?

Não podia continuar escrevendo uma ficção ambientada num lugar que estava sendo destruído e fingir que nada estava acontecendo. Ao incorporar a guerra ao livro,não pude ignorar a culpa que eu sentia por estar num lugar seguro,fazendo arte a partir da minha dor e da dor de outras pessoas. Precisava ser honesta e,assim,a não ficção foi colidindo com a ficção. Parei de me preocupar com o gênero e me concentrei em escrever sobre a guerra enquanto ela acontecia.

A comunidade internacional precisa se colocar com mais firmeza ao lado da Ucrânia?

Se meu livro tem um papel é chamar a atenção para a guerra fazendo os leitores se conectarem com os personagens que vivem o conflito no cotidiano. O Ocidente não tem escolha: precisa apoiar cada vez mais a Ucrânia. Do contrário,Putin vai continuar avançando e não vai parar na Ucrânia.

A guerra tem submetido as mulheres ucranianas à violência sexual e ao aumento da mortalidade materna. Ainda assim,os estereótipos sobre elas persistem?

Os estereótipos sobre mulheres do Leste Europeu surgiram depois da dissolução da União Soviética,um momento de dificuldade econômica quando muitas mulheres se casaram com estrangeiros. Em momentos difíceis,as pessoas fazem o que precisam fazer. O estereótipo da ucraniana submissa pegou,embora não tenha lastro na realidade. A guerra tem questionado ainda mais esse estereótipo. O exército ucraniano está cheio de mulheres. O grupo feminista Femen,que agora está baseado em Paris,surgiu na Ucrânia. As ucranianas nunca foram submissas.

O personagem idoso que se recusa a deixar seu apartamento é inspirado no seu avô,não?

Meu avô tem 88 anos e vive sozinho em Kherson,onde a situação é cada vez pior. Ele sabe que se deixar seu apartamento provavelmente nunca mais vai voltar e decidiu passar o resto dos seus dias lá. Tivemos que aceitar. Tenho parentes que foram para Kiev e para o exterior. Com exceção do meu avô,toda a minha família foi deslocada pela guerra.

Balanços abandonados em parque de Kherson,na Ucrânia — Foto: David Guttenfelder/The New York Times

Você e sua irmã foram à Ucrânia em 2023. Como foi?

Fomos numa época relativamente calma,em termos de ataques. Passamos cinco semanas e fomos nos movendo progressivamente para o leste,até Kharkiv. Foi uma experiência muito estranha,apesar das tentativas nos proteger psicologicamente naquela situação. Escrever foi jeito que encontrei de transformar,de controlar a realidade,mantendo-a afastada de mim,fingindo que eu estava segura.

Putin usa estratégias agressivas de “russificação”,como eliminar o ensino da língua ucraniana em áreas ocupadas.

Típica estratégia imperialista repetida há séculos. Não me surpreende que a língua seja uma das primeiras coisas que eles tentam destruir. A língua ucraniana resistiu ao longo de séculos,não será suprimida.

Você foi criada falando russo.

Em Kherson,onde cresci,fala-se mais russo. A mídia ocidental costuma confundir a língua que você fala na Ucrânia com sua filiação política,como se todos os falantes de russo fossem pró-Rússia ou apoiadores de Putin. Isso não é verdade. Inclusive,em termos de danos ao território e à infraestrutura,os ucranianos russófonos sofreram mais. Tanto que agora me parece que as principais fortalezas anti-Putin estão no leste da Ucrânia,justamente por causa dessas atrocidades.

Como avalia a liderança do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky?

Não sei se gostaria de falar sobre isso,porque o meu papel como escritora é tratar da experiência pessoal da guerra. Mas acho que Zelensky tem feito um bom trabalho conquistando o apoio do Ocidente.

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