
Pix no celular: BC estuda restrições durante a madrugada — Foto: Hermes de Paula/Agência O Globo
O Banco Central (BC) avalia exigir das instituições financeiras mais tempo de análise (até 72 horas) para creditar na conta de um cliente os recursos resultantes de transações de alto valor realizadas por Pix durante a madrugada.
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A discussão ainda é inicial e não há definição de valores nem horários específicos,mas a intenção da autoridade monetária é criar espaço e afinar o critério para identificar fraudes em análises mais detalhadas de transações suspeitas para reduzir crimes como golpes digitais,fraudes,roubos e transferências forçadas por sequestros relâmpagos.

O edifício do Banco Central,em Brasília: gestão de Gabriel Galípolo freou agenda de inovações para focar no reforço da segurança do Pix e já colhe resultados — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
A preocupação com a madrugada vem de ser um período em que há menor vigilância humana do sistema,com equipes de segurança reduzidas nas instituições envolvidas.
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O Pix é um sistema instantâneo de transferências,mas,atualmente,bancos e fintechs já são obrigados a “segurar” transações quando suspeitam de operação fraudulenta.
No caso da instituição pagadora,há um prazo adicional de 60 minutos para a análise antes do envio efetivo do dinheiro transferido por Pix. No lado recebedor,há um bloqueio cautelar pelo banco: a cifra é acusada,mas o recurso fica bloqueado na conta do cliente por até 72 horas. Após a análise mais detalhada,se a transação for considerada fraudulenta,o dinheiro é devolvido.
Hoje essa definição depende dos parâmetros de cada instituição financeira,considerados bastante heterogêneos por técnicos do BC,aumentando a chance de golpes passarem. Por isso,a autoridade monetária quer definir critérios mínimos obrigatórios de análise de uma transação,o que não impede que cada banco ou fintech tenha “gatilhos” adicionais.
Um dos critérios mínimos relaciona horário e valor da operação. Não está definido o montante que acionaria o “gatilho” de suspeita de fraude nem a faixa de horário. Isso tem sido discutido dentro do grupo de segurança do Fórum Pix,que reúne representantes das instituições,da academia e da sociedade civil,além do BC.
Outro parâmetro avaliado é quando as transações acontecem de forma sequencial em um curto intervalo de tempo.
Essa medida é demandada pelos bancos desde o ano passado,após o aumento de ataques e golpes hackers a instituições financeiras via Pix. No caso mais representativo,foram desviados cerca de R$ 800 milhões de bancos e fintechs por meio da invasão do sistema da empresa de tecnologia C&M Software,espécie de intermediária entre instituições na operação das transferências.
Parte das fintechs,no entanto,tem resistências. Avaliam que mais tempo para finalizar operações pode afetar alguns modelos de negócios.
O próprio BC trata do tema com cautela porque teme algum impacto na experiência do cliente ao mexer num dos diferenciais do Pix: o caráter imediato da transferência. Por isso,estuda com cuidado como fazer essa mudança.
Na avaliação do regulador bancário,na maioria dos casos não há urgência para finalizar uma transação de valor alto durante a madrugada,quando as equipes de segurança de bancos,fintechs e do BC são limitadas.
No caso de empresas multinacionais ou pessoas que precisem fazer pagamentos recorrentes nesse horário,deve ser possível habilitar contas previamente para realizar transações na madrugada.
Provavelmente a “trava” nas transações enquadradas como suspeitas deverá ser feita obrigatoriamente apenas na instituição recebedora,para não criar problemas ou incômodos na hora de o cliente fazer o Pix,mas impedir que o dinheiro chegue aos criminosos. Ou seja,quem manda não perceberia,mas a outra ponta demoraria mais para efetivamente por a mão do dinheiro.

Sistemas de pagamentos instantâneos como o Pix demandam alto controle de segurança — Foto: Júlia Aguiar/ Agência O Globo
Ainda não há data,mas pessoas a par avaliam que a norma com os critérios objetivos para suspeitas de fraude possa ser publicada até o fim deste ano,mas sem vigência imediata.
A ideia é parte de um novo pacote de iniciativas para reforçar a segurança do Pix. Desde a virada no foco de inovação para proteção do sistema,no ano passado,o BC já viu uma redução no indicador de fraudes no Pix.
Caiu de 11 casos a cada 100 mil transações em julho de 2024,pico da série iniciada em 2022,para 4,2 a cada 100 mil em abril deste ano,último dado do BC disponível e menor índice já registrado.
A estatística se refere ao número de transações que foram contestadas pelas vítimas de golpes via Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Pix e cujas queixas foram consideradas procedentes pelos bancos e fintechs envolvidos.
O MED foi criado em 2021 para facilitar a devolução de valores desviados devido a golpes,coerção ou falhas operacionais no Pix,mas vem sendo aprimorado nos últimos anos para aumentar sua efetividade.
Desde 2025,o percentual de recuperação de recursos desviados com o acionamento do MED tem se elevado gradualmente. Em abril,a parcela devolvida chegou a 16,2%,recorde desde o início da medição. No mesmo período de 2025,a taxa foi de 11,2%.
Dentre as novidades na agenda de segurança do Pix,há medidas que devem aumentar a eficiência do MED. Uma delas é o tratamento de intermediários de pagamento no Pix,como marketplaces.
Atualmente,a instituição financeira e o BC só conseguem ver a transação entre o comprador e esses shoppings virtuais,e não até o destinatário final do pagamento,que é o real vendedor do produto inscrito na plataforma. Isso pode abrir brechas para ocultação de recursos e lavagem de dinheiro.
Além disso,em caso de fraude,o golpista pode se esconder “atrás” do marketplace,cuja reputação é alta dentro das instituições financeiras. Ou seja,quando o cliente vai reclamar de uma fraude na transação via MED,o banco só encontra a conta recebedora da plataforma de comércio eletrônico e já descarta prontamente uma fraude.
Para corrigir isso,a ideia é colocar no código para o pagamento via Pix alguma menção ao destinatário final,o que é visto também como uma medida complementar às restrições impostas às “contas-bolsão” (usadas por criminosos para ocultar recursos sob o escudo de uma empresa de pagamentos) em 2025.
Por outro lado,estão em curso análises para aperfeiçoar o botão de contestação de transações no Pix,ferramenta de autoatendimento criada em outubro do ano passado para a reclamação de fraudes de forma 100% digital por meio dos aplicativos de bancos e fintechs.
A ideia era agilizar o processo para impedir que os criminosos sumissem rapidamente com os recursos.
Mas,passado quase um ano,está claro para o BC que parte dos clientes tem usado o botão para outras finalidades. São comuns requisições de valores que foram transferidos por engano ou mesmo de ressarcimento por produtos ou serviços que não agradaram.
Depois da criação do recurso,o número de operações contestadas no MED praticamente triplicou. Foi de 1,24 milhão em setembro para 3,45 milhões em outubro. Em abril de 2026,recuou para 2,96 milhões. O BC deve orientar as instituições a incluir mais perguntas no processo,para entender claramente se a reclamação se refere a fraudes.
Outra medida de segurança planejada pelo BC é a criação de um indicador de probabilidade de fraudes no Pix com auxílio de inteligência artificial (IA),dando notas para cada transação.
A ideia é que o indicador funcione como um elemento adicional de alerta na análise dos times de segurança dos bancos e fintechs,auxiliando principalmente os menores,por meio das informações que o BC detém de todas as operações.
Além disso,o regulador avalia padronizar os alertas de fraudes que algumas instituições já fazem aos seus clientes quando identificam que a transação é suspeita.
Dentre as iniciativas estudadas,a que deve ser lançada mais rapidamente é a ampliação do rol de medidas cautelares para punir participantes do sistema que colocam o Pix em risco,já que depende apenas da publicação das regras pelo BC.
Hoje,a única sanção prevista é a suspensão do sistema de pagamentos,o que impossibilita todos os clientes da instituição de fazer ou receber transferências.
O entendimento entre os técnicos é o de que,para alguns casos de irregularidade menos graves,a punição é um “tiro de bazuca”. Um “beliscão” seria suficiente para corrigir o participante.
A expectativa dos formuladores é incluir outras punições,como suspensão do cadastro de novas chaves Pix ou restrição a transferências em horários ou faixas de valor. Uma referência é o limite de R$ 15 mil por operação já aplicado hoje para instituições que precisam de provedores de tecnologia (PSTI) para realizar as transações.
O BC também vai ter de agir fora da seara financeira para reforçar a segurança do Pix.
O órgão identificou que o campo de mensagens do Pix está sendo usado para enviar ameaças e ofensas,geralmente em transações de valor irrisório.
Técnicos avaliam que a medida mais eficiente deve ser permitir que o cliente restrinja o recebimento de mensagem ou o faça de maneira personalizada,impedindo o envio de textos de determinadas chaves Pix.

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