Medicamento extraído da \'Cannabis\' — Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo/20/10/2023 RESUMOSem tempo? Ferramenta de IA resume para você

Medicamento extraído da 'Cannabis' — Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo/20/10/2023
GERADO EM: 08/04/2026 - 22:12
O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
O debate sobre o uso medicinal de produtos derivados da Cannabis no Brasil ganhou novo fôlego com a publicação recente de uma metanálise — combinação de dados de estudos independentes sobre um mesmo tema para obter uma conclusão única — conduzida por Jack Wilson e colaboradores,na Lancet Psychiatry. O estudo,frequentemente citado como argumento contrário ao avanço do acesso,levanta pontos relevantes — mas sua leitura no debate público tem sido mais categórica do que os próprios dados sustentam,sobretudo quando extrapolada para a prática clínica em saúde mental.
Veja lista e valores: Master declarou R$ 41 milhões em pagamentos de serviços a ex-presidente,ex-ministros e mais
A própria metanálise reconhece limitações importantes: quase metade dos estudos apresenta alto risco de viés,com amostras pequenas,acompanhamento curto e grande heterogeneidade entre formulações,doses e populações. Em ciência,isso exige cautela. A ausência de benefício estatisticamente significativo não equivale,por si só,à demonstração de ineficácia — distinção que frequentemente se perde fora do ambiente acadêmico.
Malu Gaspar: No centro do caso Master,Moraes tira da gaveta ação do PT para limitar delação
Ainda assim,o estudo identifica sinais de benefício em condições específicas,como redução de sintomas de abstinência no transtorno por uso de Cannabis,melhora do sono,redução de tiques e melhora de sintomas no espectro autista. São achados compatíveis com mecanismos biológicos conhecidos e com a prática clínica,ainda que baseados em evidência de baixa certeza — o que recomenda prudência,não negação. No campo da segurança,a leitura também exige nuance. A metanálise aponta aumento de eventos adversos gerais,mas não de eventos graves — sugerindo que,embora os efeitos colaterais sejam relativamente frequentes,o risco de desfechos graves não se eleva.
O ponto mais problemático é outro: a metanálise não contempla áreas em que a eficácia dos canabinoides já está estabelecida. O uso de canabidiol em epilepsias refratárias foi demonstrado em ensaios clínicos robustos (New England Journal of Medicine,2017; 2018). Nesses casos,o debate já não diz respeito a plausibilidade,mas a acesso. Isso vale para outros canabinoides com indicações aprovadas por agências regulatórias. Dronabinol e nabilona têm eficácia estabelecida para náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia,enquanto o nabiximols (Sativex/Mevatyl),aprovado em diversos países e pela Anvisa,demonstrou benefício na espasticidade da esclerose múltipla. Na dor crônica,revisões sistemáticas apontam benefício em populações selecionadas. Ignorar esse corpo de evidências e extrapolar conclusões de um recorte específico para toda a classe terapêutica empobrece o debate e pode restringir o acesso de pacientes a terapias eficazes.
Há ainda um erro conceitual recorrente: tratar “canabinoides” como uma entidade única. Compostos como THC,CBD,CBN,CBG e outros têm perfis farmacológicos distintos,com efeitos que variam conforme a dose,a formulação e o contexto clínico. Generalizações desse tipo produzem conclusões simplistas para um campo que é,por definição,complexo.
Áreas emergentes seguem avançando,ainda fora do escopo da metanálise,como insônia,sintomas comportamentais das demências e sintomas não motores da doença de Parkinson. Desconsiderar esse movimento é ignorar a própria dinâmica da ciência.
O debate público exige mais que posições categóricas. Exige a leitura cuidadosa da evidência e a responsabilidade na sua tradução em decisões clínicas e políticas. A pressa em negar,quando a ciência ainda está em construção,não protege o paciente — apenas limita suas opções.
*Ana Gabriela Hounie,psiquiatra,fez pós-doutorado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e é fundadora da Associação Médica Brasileira de Endocanabinologia (AMBCANN),Flávio Henrique de Rezende Costa,neurologista,é doutor em neurologia pela UFRJ,integrante internacional da American Academy of Neurology e secretário da AMBCANN

© Hotspots da moda portuguesa política de Privacidade Contate-nos