O presidente dos Estados Unidos,Donald Trump — Foto: Brendan SMIALOWSKI / AFP/06/04/2026 Traz sem dúvida alívio o cessar-fogo de duas semanas na guerra travada por Estados Unidos e Israel contra o

O presidente dos Estados Unidos,Donald Trump — Foto: Brendan SMIALOWSKI / AFP/06/04/2026
Traz sem dúvida alívio o cessar-fogo de duas semanas na guerra travada por Estados Unidos e Israel contra o Irã e seus satélites. Por 39 dias,o conflito matou milhares no Oriente Médio e levou o barril de petróleo de US$ 70 para US$ 100,provocando um choque na economia global. Mas,apesar de o respiro ter revelado que a ameaça proferida por Donald Trump de “destruir uma civilização” não passava de bravata,seria prematuro exagerar no otimismo. O cessar-fogo revelou-se frágil desde ontem e desperta bem mais dúvidas que tranquilidade.
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A primeira diz respeito ao conteúdo do plano intermediado pelo Paquistão,que Trump qualificou como “base para negociação”. Pelo que veio a público,as exigências iranianas são inaceitáveis. A proposta mantém a capacidade de enriquecimento de urânio iraniana e o controle sobre o Estreito de Ormuz,além de suspender todas as sanções econômicas e resoluções do Conselho de Segurança da ONU e da Agência Internacional de Energia Atômica contra o Irã. Aceitar tais condições equivaleria a premiar não apenas os aiatolás,mas qualquer regime terrorista no futuro.
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Quando desferiu os ataques,Trump apresentou dois objetivos militares: aniquilar o programa nuclear e a capacidade iraniana de ameaçar os vizinhos. A queda da teocracia também era meta “desejável”. Cinco semanas depois,é indiscutível o êxito da campanha na destruição do poderio bélico do Irã,assim como na decapitação das lideranças do regime,a começar pelo aiatolá Ali Khamenei. A economia do país está em frangalhos,indústrias estão paralisadas,a população amedrontada,e a relação comercial com os países do Golfo Pérsico fraturada.
Apesar disso,os radicais da Guarda Revolucionária continuam no poder,a teocracia mostrou-se resiliente,e o Irã não parou de atacar um só dia. Mesmo nas primeiras horas depois do cessar-fogo,Kuwait,Israel,Emirados Árabes e Arábia Saudita afirmaram ter sido alvo de ataques. O primeiro-ministro israelense,Benjamin Netanyahu,apressou-se a afirmar que o cessar-fogo não valia para o Líbano e deflagrou novos bombardeios ao Hezbollah em solo libanês.
Ainda que enfraquecidos,é difícil saber quanto os iranianos estarão dispostos a ceder. Não se sabe nem se as lideranças que negociam em nome do país terão poder de cumprir os compromissos assumidos. O mais crítico é que,até agora,não foram encontrados os 440 quilos de urânio enriquecido para uso militar que Trump prometeu resgatar. O Irã reabriu,mas fechou Ormuz novamente depois dos ataques israelenses no Líbano. Mesmo que o estreito permaneça aberto sob controle iraniano,o avanço será insuficiente para recuperar o setor petrolífero. A infraestrutura de ao menos nove países — de campos de exploração de óleo e gás a refinarias e reservatórios — foi destruída. Cerca de 10% da produção mundial parou. Recuperá-la demandará tempo.
De concreto,os 39 dias de guerra serviram para desgastar ainda mais a relação de Trump com os países europeus,que se negaram ou relutaram em prestar ajuda. Ao mesmo tempo,aproximaram Israel dos países árabes,dando sinal de redesenho do mapa geopolítico da região. Trump se revelou de novo um falastrão,propenso a ameaças seguidas de recuos e da busca desesperada por pretextos que lhe permitissem cantar vitória. No plano militar,pode até ter motivos para isso,mas apenas os termos do cessar-fogo permitirão avaliar se alcançou os objetivos traçados.

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