
Por que os 50 + não estão mais ficando em casamentos de fachada — Foto: Reprodução/ Magnific
GERADO EM: 26/06/2026 - 18:54
O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
Em 2021,depois de mais de 30 anos juntos,Alan Hickenbottom e sua esposa deram entrada no divórcio. Ainda assim,ele acredita que o casamento foi um sucesso.
Os primeiros anos de relacionamento foram divertidos e cheios de entusiasmo. Eles se aproximaram pelo interesse em comum por livros,arte e pelo desejo de fazer a diferença no mundo. (Hickenbottom,hoje com 67 anos,trabalhou por décadas no setor de energia renovável; sua ex-esposa era professora e bibliotecária escolar.)
Descanso eficaz: conheça 4 dicas que deixam seu quarto ideal para uma noite de sono reparadorNovo balanço: Epidemia de ebola na República Democrática do Congo causou 304 mortes
Depois,os dois se dedicaram intensamente à criação dos filhos. Mas,como acontece com muitos casais,quando as crianças saíram de casa para cursar a faculdade,Hickenbottom percebeu que ele e a esposa haviam se tornado mais colegas e companheiros de casa do que parceiros românticos.
Dois anos de terapia de casal não resolveram a situação.
Continuar Lendo
— Eu não queria desvalorizar a vida que construímos juntos,mas aquela não era a forma como eu queria viver — disse Hickenbottom.
Ele pensou que talvez ainda tivesse mais 40 anos de vida pela frente.
— O que eu quero fazer da minha vida? — lembra de ter se perguntado.
Hickenbottom está longe de ser o único sexagenário que decidiu colocar fim ao casamento após esse tipo de reflexão existencial. Nos Estados Unidos,a chamada "gray divorce" — expressão usada para definir o divórcio entre pessoas com 50 anos ou mais — cresceu de forma acentuada,dobrando entre 1990 e 2010. Embora essas taxas tenham se estabilizado após a pandemia,quase 40% dos divórcios registrados atualmente acontecem entre pessoas nessa faixa etária.
Enquanto as taxas de divórcio vêm diminuindo nas demais faixas etárias,entre os americanos com 65 anos ou mais ocorre justamente o contrário. As razões são complexas,mas está cada vez mais claro que parte da geração X e dos baby boomers não está mais disposta a permanecer no que os sociólogos chamam de "casamentos de fachada" (empty shell marriages).
São relacionamentos em que já não existe uma conexão verdadeira nem vitalidade; em que um ou ambos os parceiros não são felizes,explica Susan Brown,professora de Sociologia da Bowling Green State University e codiretora do National Center for Family and Marriage Research. Tradicionalmente,esses casais permaneciam juntos pelos filhos,pela estabilidade financeira ou pelo receio do estigma social.
Agora,isso pode estar mudando.
— Esta geração está vivendo mais do que as anteriores — afirma Brown. — Isso pode estar mudando o cálculo sobre permanecer ou não em um casamento que já não tem tanto significado.
O aumento da expectativa de vida é um dos fatores que impulsionam a decisão de muitos idosos pelo divórcio,afirma Justin Garcia,diretor executivo do Kinsey Institute,em Bloomington,Indiana,e autor do livro The Intimate Animal: The Science of Sex,Fidelity,and Why We Live and Die for Love.
— Como espécie,estamos vivendo relacionamentos muito mais longos do que nossos antepassados jamais viveram — afirma. — A monogamia ao longo de toda a vida costumava significar apenas algumas décadas.
Hoje,porém,existem casais que permanecem juntos por 50,60 ou até mais de 70 anos.
— Isso é algo sem precedentes do ponto de vista da evolução humana — diz Garcia.
Ao mesmo tempo,as expectativas em relação ao casamento mudaram. Os baby boomers,que em geral se casaram muito jovens — em parte porque esse era o padrão da época — vivem hoje em uma sociedade que enxerga o casamento como um caminho para o amor e para a realização pessoal,explica Claire Kamp Dush,professora de Sociologia da Universidade de Minnesota.
— Hoje,não formamos casais apenas com base na ideia de que uma pessoa será a provedora financeira e a outra cuidará da casa — afirma.
Segundo ela,é possível que nossa tolerância para permanecer em relacionamentos apenas "razoáveis" esteja diminuindo.
Ruchi,de 58 anos,chegou a esse ponto quando o marido esqueceu seu aniversário de 50 anos. Ela não queria festa nem presentes,mas esperava receber ao menos um cartão ou um jantar preparado por ele. Quando deu 21h30,ficou claro que o marido,com quem estava casada havia 20 anos,simplesmente havia esquecido a data. Ruchi pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome,pois ainda negocia os termos do divórcio.
— Você deixa tantas coisas de lado porque é mãe e está cuidando da família — conta. Ela observa que,embora tanto ela quanto o marido sempre tenham trabalhado — ambos na área de pesquisa científica —,era ela quem assumia naturalmente a maior parte dos cuidados com os dois filhos adolescentes.
— Então você começa a pensar: será que eu sirvo apenas para isso? Em que momento deixei de ser uma pessoa?
A menopausa intensificou esse momento de crise.
— Eu realmente achei que estivesse enlouquecendo,porque tudo me irritava — diz.
— A menopausa não significa apenas perda de estrogênio; ela também representa perda de tolerância — explica Rebecca Thurston,vice-diretora de pesquisa em saúde da mulher da Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh.
É claro que o divórcio pode ser caro,e casais mais velhos,aposentados ou próximos da aposentadoria,têm muito a perder financeiramente. Por isso,alguns optam por encerrar o relacionamento,mas sem oficializar o divórcio.
Foi o que aconteceu com Gale Emigh,de 73 anos,que se separou do marido após 40 anos de casamento,há cerca de seis meses. Eles concordaram em evitar um divórcio "complicado e caro",conta ela. Em vez disso,pediram ao consultor financeiro que distribuísse igualmente,todos os meses,os recursos do patrimônio comum. Ela permaneceu na casa que compraram juntos em Sequim,no estado de Washington,enquanto ele se mudou para um apartamento na Califórnia,onde o casal viveu durante a maior parte da vida.
Embora o casamento não fosse necessariamente infeliz,havia se tornado "estagnado",diz Emigh. Em alguns momentos,ela conseguia ignorar o vazio que sentia. Em outros,a sensação surgia de forma inevitável,como aconteceu no casamento do filho.
Ela conta que passou o dia rindo,dançando e transbordando de alegria. Só depois percebeu que quase não havia passado tempo algum ao lado do marido durante toda a celebração. Em casa,frequentemente se sentia sozinha,mesmo quando ele estava sentado ao seu lado.
— Finalmente aceitei que era assim que seria a nossa vida se continuássemos juntos — afirma.
No entanto,lidar com a vida após uma separação na maturidade nem sempre é simples. Susan Brown destaca que,enquanto adultos mais jovens costumam se recuperar do divórcio em um ou dois anos,pessoas mais velhas tendem a sofrer impactos financeiros e psicológicos mais profundos.
As pesquisas da socióloga também mostram que os homens têm mais chances de iniciar um novo relacionamento após um "divórcio grisalho",em parte porque as mulheres vivem,em média,mais do que eles,reduzindo o número de possíveis parceiras. Além disso,há evidências de que as mulheres demonstram menos interesse em se casar novamente do que os homens.
Os aplicativos de relacionamento também mudaram esse cenário para pessoas que encerram casamentos de longa duração,oferecendo,ao menos,a percepção de que existem novas possibilidades. Segundo um relatório de 2023 do Pew Research Center,14% dos americanos na faixa dos 60 anos e 12% daqueles com 70 anos ou mais afirmaram já ter usado um aplicativo de namoro.
Após o divórcio,Hickenbottom conta que "namorou bastante" até conhecer sua atual noiva,com quem está há dois anos. Ele afirma que continua mantendo uma boa relação com a ex-esposa.
Já Emigh diz que,desde a separação,não sente o menor interesse em se casar novamente. Ela encontra alegria em diferentes tipos de relacionamento,especialmente nas amizades femininas,embora permaneça aberta à possibilidade de viver um novo romance.
— O que ainda procuro é conforto,risadas e companhia — resume.
Ruchi,por sua vez,afirma que não sabe se voltará a namorar algum dia. Talvez isso mude com o tempo,diz ela,mas,por enquanto,não sente que precise encontrar outra pessoa para se sentir completa.
Ela passou a aceitar viagens de trabalho que antes recusava e voltou a cozinhar pratos mais apimentados,como gostava antes de abrir mão deles porque o marido não apreciava comida muito condimentada.
— Parece uma coisa pequena,mas para mim significa muito — afirma.
Houve um momento,conta ela,em que só conseguia pensar:
— Meu Deus,como vamos fazer isso? Como tudo vai funcionar? O que minha família vai dizer?
Depois,lembrou a si mesma:
— Eu sou uma pessoa forte. Sou uma pessoa capaz. Minha família é muito,muito importante para mim,mas eu sou mais do que meus filhos e meu marido. Acho que,em algum momento,eu havia me esquecido disso.

© Hotspots da moda portuguesa política de Privacidade Contate-nos