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O legado inesperado da pandemia: como o home office ajudou mães e pais a conciliar carreira e filhos

Christine Mealey,who works from home doing human resources investigations for a pharmaceutical company,with her 4-year-old Sam at their home in Boston June 15,2026. Post-pandemic,a new openness to accommodating family needs has made it possible for more mothers and fathers to balance work and parenting — particularly mothers of young children. — Foto: (Tony Luong/The New York Times)

RESUMO

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GERADO EM: 29/06/2026 - 00:40

Flexibilidade no Trabalho Remoto Facilita Conciliação para Pais e Mães

A pandemia de Covid-19 trouxe uma flexibilidade inédita ao trabalho remoto,beneficiando pais e mães ao permitir melhor conciliação entre carreira e família. Kerry Donovan,advogada,exemplifica como essa mudança tornou possível ter filhos enquanto gerencia uma carreira exigente. No entanto,há uma encruzilhada: alguns empregadores reduzem benefícios,enquanto a flexibilidade demonstrou ser crucial,especialmente para mães,na continuidade no mercado de trabalho.

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Kerry Donovan,advogada especializada em litígios,tinha uma carreira tão exigente que não tinha certeza se queria ter filhos. A pandemia de Cocid-19 mudou isso. Suas jornadas de trabalho continuaram longas e imprevisíveis,ela era a principal provedora da família. Mudou-se para o outro lado do país para ajudar a cuidar dos pais depois que seu pai sofreu um AVC.

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Ainda assim,apesar de tudo isso,ter filhos passou a parecer possível — graças à forma como o trabalho durante a pandemia reduziu a necessidade de que os trabalhadores de escritório estejam fisicamente no escritório.

Hoje,Kerry tem dois filhos,de 4 e 2 anos. Ainda vai ao escritório vários dias por semana. Segundo ela,a possibilidade de trabalhar em casa tornou viável conciliar carreira e família,ao mudar a cultura do ambiente de trabalho.

— O que a pandemia fez foi fazer com que,de repente,as pessoas falassem mais sobre suas famílias: “tenho filhos pequenos” ou “tenho um pai doente”. E isso tornou tudo mais fácil — disse a advogada. — A pandemia foi o principal fator que me permitiu continuar neste emprego.

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Flexibilidade inédita diante de encruzilhada

Para as pessoas cujos trabalhos podem ser realizados em diferentes lugares e horários — principalmente profissionais de escritório com ensino superior —,um dos efeitos duradouros da pandemia foi uma flexibilidade inédita,algo difícil de encontrar no ambiente de trabalho dos EUA,que vinha se tornando cada vez mais exigente.

Elizabeth Terhune,who worked her biology lab job from home when her youngest was born during the COVID pandemic,with her children n Santa Fe,N.M.,June 15,a new openness to accommodating family needs has made it possible for more mothers and fathers to balance work and parenting — particularly mothers of young children. — Foto: (Brad Trone/The New York Times)

Hoje,26% dos pais e mães ainda trabalham remotamente em alguns dias da semana. E,como Kerry,muitos trabalhadores relatam uma nova atitude no escritório em relação à família: algo que deve ser acomodado,e não escondido.

Agora,após seis anos desde a pandemia,a cultura do trabalho nos EUA parece estar em uma encruzilhada. Alguns empregadores estão reduzindo benefícios que ajudavam pais e mães trabalhadores,incluindo o trabalho remoto. Ao mesmo tempo,um movimento conservador defende que mais mães permaneçam integralmente em casa.

Ainda assim,há evidências de que um ambiente de trabalho mais flexível e voltado para a família beneficiou cuidadores de todos os tipos,incluindo pais,pessoas que cuidam de pais idosos e,especialmente,mães. Em entrevistas,algumas disseram que não teriam tido filhos de outra forma. Outras afirmaram que talvez não tivessem continuado trabalhando.

Mais mães empregadas

Desde 2023,a proporção de mães em idade ativa com filhos de até 18 anos que participam do mercado de trabalho tem sido consistentemente maior do que em 2019 — um período que já registrava desemprego muito baixo,inclusive entre as mães.

Isso é particularmente verdadeiro entre mães de crianças menores de 5 anos,segundo uma análise de dados realizada para o New York Times pelo Hamilton Project,da Brookings Institution.

Economistas consideram esse grupo um importante indicador,porque essas mulheres são as mais afetadas pelas demandas da maternidade e as que têm menor probabilidade de trabalhar.

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As mães trabalham porque precisam: 45% delas são as principais provedoras de suas famílias; os salários frequentemente não acompanham o aumento do custo de vida; e as mulheres sofrem prejuízos de longo prazo na carreira quando interrompem o trabalho.

E elas também trabalham porque querem: em média,as mulheres têm maior escolaridade que os homens,estão tendo filhos mais tarde e investem em carreiras que consideram importantes.

Mais tempo com os filhos

Ao mesmo tempo,a maioria dos pais e mães que trabalham também afirma desejar passar mais tempo com os filhos. Embora as mudanças sejam graduais,os dados sugerem que a flexibilidade no trabalho tornou mais possível para um número maior de pessoas conciliar essas duas prioridades.

Desde a pandemia,as mães têm demonstrado “grande resiliência” ao permanecer no mercado de trabalho,afirmou Lauren Bauer,pesquisadora de estudos econômicos da Brookings e responsável pela análise.

Muitos obstáculos para conciliar trabalho e cuidados familiares permanecem.

O aumento dos custos com creches tornou o trabalho mais caro. As mulheres continuam recebendo menos que os homens — especialmente depois que se tornam mães.

Embora mães sem diploma universitário também estejam trabalhando mais,isso não significa necessariamente que ficou mais fácil equilibrar trabalho e família; muitas vezes,significa apenas que ficou mais difícil fechar as contas.

Segundo filho com maior flexibilidade

Elizabeth Terhune,de 37 anos,lembra as dificuldades de trabalhar com um bebê antes da Covid-19,quando precisava extrair leite materno em seu laboratório de biologia.

Quando teve seu segundo filho,já trabalhando remotamente durante a pandemia,pôde amamentá-lo quando ele tinha fome e organizar seus horários com flexibilidade,ao mesmo tempo em que avançava significativamente na carreira.

— Naquele momento,as normas já tinham mudado muito — disse Terhune,que vive em Santa Fe,no estado do Novo México. — Eu não precisava mais sentir que estava escolhendo entre passar tempo com meu filho pequeno e trabalhar.

Homens também buscam flexibilidade

Muitos homens sentem ainda mais pressão para estarem sempre disponíveis no trabalho. Ainda assim,pesquisas mostram que,no período pós-pandemia,um número maior deles está passando mais tempo com os filhos e buscando horários flexíveis.

Trivikram Krishnamurthy,de 50 anos,que trabalha com tecnologia em Los Altos,Califórnia,reveza com sua esposa — que trabalha no setor financeiro — os dias de trabalho em casa. Isso permite que ele busque o filho de 11 anos na escola e ajude a filha de 14 anos com a lição de matemática.

Trivikram Krishnamurthy reveza com a esposa os dias de home office,para poder buscar os filhos na escola — Foto: Brad Trone/The New York Times

Segundo ele,fazer isso durante o expediente era algo inimaginável antes. Hoje,porém,não sente mais necessidade de pedir desculpas por reorganizar sua agenda para ficar livre na hora após a saída das crianças da escola.

— Existe uma cultura que diz que você nunca deve tirar tempo para si,e acho que isso melhorou — afirmou Krishnamurthy. — Você ainda precisa cumprir suas responsabilidades no trabalho e em casa,mas já não existem exigências arbitrárias de presença física.

À medida que a taxa de natalidade cai nos Estados Unidos,algumas mulheres disseram que essa nova flexibilidade foi justamente o que lhes permitiu se tornar mães.

Mãe solo

Christine Mealey,de 40 anos,sabia que criar um filho sozinha seria difícil. Ela só teve seu filho,hoje com 4 anos,depois de conseguir um cargo totalmente remoto durante a pandemia,realizando investigações na área de recursos humanos para uma empresa farmacêutica em Boston.

A creche é cara — cerca de US$ 30 mil por ano — e,quando o menino fica doente em casa,ela não consegue trabalhar. Mas trabalhar remotamente enquanto ele está na creche “ajuda em todos os aspectos da minha vida”,disse ela. Assim,consegue lavar a roupa ou resolver pequenas tarefas durante o expediente,liberando tempo quando o filho está em casa.

Antes da pandemia,muitos empregos nas grandes empresas americanas haviam adotado uma jornada quase ininterrupta,recompensando de forma desproporcional quem estivesse sempre disponível. Isso frequentemente levava as mães a aceitar cargos menos exigentes para poder permanecer disponíveis em casa.

Para Kerry,a advogada de 40 anos que vive em Asbury Park (Nova Jersey),o medo de precisar colocar em segundo plano a carreira na qual investira duas décadas era justamente o motivo para questionar se deveria ter filhos. A pandemia,permitiu que ela fizesse isso enquanto também cuidava dos pais — e que ainda fosse promovida a sócia de seu escritório,Winston Taylor.

Hoje,depoimentos judiciais podem ser realizados virtualmente,sem exigir vários dias de viagem. Ela trabalha alguns dias por semana em casa,economiza três horas diárias de deslocamento e consegue estar presente para o jantar e a hora de dormir dos filhos.

— Tenho absoluta certeza de que,se precisasse ir ao escritório como fazia antes da pandemia,eu não estaria vivendo essa realidade — disse a advogada. — Certamente eu não seria feliz.

Especialistas miram estrutura do trabalho

Durante muito tempo,os EUA trataram o equilíbrio entre trabalho e família como um problema individual. Mas pesquisadores afirmam que o trabalho remoto mostrou outra realidade: mudar a forma como o trabalho é organizado pode produzir impactos muito mais amplos.

— Muitos dos desafios enfrentados pelos pais e mães que trabalham,assim como suas soluções,dizem respeito à estrutura do trabalho,e não ao esforço individual das pessoas — afirmou Corinne Low,professora associada da Wharton School,da Universidade da Pensilvânia.

Segundo especialistas,empregadores e formuladores de políticas públicas têm o poder de transformar o trabalho para beneficiar um número maior de pessoas.

— Precisamos ser mais ousados ao exigir uma vida digna para pais,mães e trabalhadores — disse Sarah Banet-Weiser,diretora da Annenberg School for Communication,da Universidade da Pensilvânia. — Existe essa ideia de que nada pode mudar. Mas tivemos esse grande experimento durante a pandemia,e a economia não entrou em colapso.

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