
Ricardo Siri cria 400 mil abelhas em meliponário em sua própria casa — Foto: Ana Branco
O artista Ricardo Siri apresenta a exposição individual "Pro-polis" no Museu Histórico da Cidade,no Rio de Janeiro. A mostra fica em cartaz até o dia 22 de agosto. A exposição reúne 33 obras abstratas que utilizam mel,própolis e cera. Os insumos são produzidos por cerca de 400 mil abelhas criadas na própria casa do artista. Conhecido por sua trajetória na música como percussionista,Siri faz referências à História da Arte. Ele recria obras famosas utilizando as estruturas hexagonais das colmeias. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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Ao observar as abelhas,Ricardo Siri passou a perceber como elas se parecem com os humanos em aspectos da vida comunitária. Com isso,o que era para ser só uma pesquisa de dois anos para a composição de uma série de obras de arte se tornou um mergulho de oito anos de estudo. E foi além: enquanto ele mantém cerca de 400 mil abelhas (em mais de 200 colmeias) em sua casa,elas lhe dão parte dos insumos de seus trabalhos,como o mel.
Sim,o mel é usado em algumas das obras,além da cera de abelha e do própolis. O artista apresenta pela primeira vez esses trabalhos numa exposição individual em “Pro-polis”,em cartaz no Museu Histórico da Cidade,na Gávea,Zona Sul do Rio,até 22 de agosto.
— No museu,inclusive,deve ficar com um cheiro muito bom de própolis. Isso é incrível — admira-se Siri. — Quando estou na primavera,mexendo muito com as abelhas,ando e elas voam atrás de mim. Acho que eu mesmo já tenho um cheiro de própolis,e elas conhecem. Esse cheiro,para mim,já é uma escultura no espaço da exposição. A atmosfera vai estar lá,tudo cheirando bem.

Ricardo Siri cria 400 mil abelhas em meliponário em sua própria casa — Foto: Ana Branco
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Curadora da mostra,Fernanda Lopes observa que o trabalho de Siri é como uma lupa sobre um universo que parece distante da nossa realidade,mas não é. As abelhas têm,por exemplo,grande importância no ecossistema e na produção de medicamentos.
— O universo das abelhas é pequeno no sentido de escala em relação ao nosso,mas é um universo gigantesco. A gente tem que parar,prestar atenção — destaca ela.
A exposição conta com 33 trabalhos,em geral abstratos. Em alguns deles,o própolis é usado para a criação de grandes manchas sobre a tela,em que Siri mostra uma experimentação própria das cores do material. Já a cera de abelha — com aquelas estruturas hexagonais que compõem a colmeia — surge em obras divertidas que fazem referência à História da Arte,quando menciona uma tal linguagem “mel concreta”,em alusão ao neoconcretismo.

Obra de Ricardo Siri é referência ao pintor Piet Mondrian — Foto: Ana Branco
A metalinguagem artística continua com “Meldrian”,referência ao pintor Piet Mondrian (1872-1944). Um dos trabalhos conta com uma composição alegre com quadriláteros rígidos que lembra a do neerlandês. Mas,em vez de cores como amarelo,vermelho,branco e azul,surgem placas de cera de abelhas nativas e até um recipiente com mel (quadrilátero também),encaixado de forma a exibir a sua própria cor. Aliás,a coloração do mel sempre vai depender das flores com as quais foi produzido e da época.
Para demonstrar um pouco do manejo com as colmeias,Siri retira uma das caixas do meliponário. Algumas abelhas surgem e grudam na roupa,nos braços e no rosto do artista,que retira um pouco de mel dos favos.
A trajetória de Siri no meio artístico nem sempre esteve ligada às artes plásticas. Ele começou na música. E foi por meio dela que fez sucesso como percussionista,tocando solo ou ao lado de grandes nomes como Hermeto Pascoal,antes de começar a enveredar pela criação de esculturas em que usava instrumentos musicais como matéria-prima.
Quando se refere às pinturas,que também estão na mostra no Museu da Cidade,ele ainda tem algumas questões:
— Eu nunca tinha pintado. Isso me deixa com um certo olho arregalado. Mas hoje sou pintor também. Para mim,é muito interessante desbravar coisas novas — diz ele ao se referir aos trabalhos em que é preciso olhar pela câmera do celular para ver o desenho das abelhas entre os hexágonos. — Nunca fico nervoso. Já estive no palco para cem mil pessoas. Estar numa exposição não dá nervoso nenhum. Mas dá uma pré-ansiedade no sentido de ver como o trabalho vai sair.

Obra de Ricardo Siri — Foto: Ana Branco
Sobre ir atrás de coisas diferentes,Siri está acostumado. Certa vez,acordou suado após sonhar com o astro Miles Davis dando tapinhas em suas costas e elogiava por ele tocar trompete muito bem. Realidade: ele não sabia nem como se fazia o dó no trompete. Então,saiu em busca de uma aula para aprender a tocar o instrumento.
— Nunca imaginei que trompete fosse tão difícil. Chegava na aula,via as crianças de 12 e 14 anos já tocando e eu,com meus 30,nada. Mas é isso que me faz vivo. Se você sabe de todas coisas,a graça acaba — reflete.
Ao longo da carreira,o percussionista lançou álbuns como “Siri” (2004),“Concerto para conserto” (2008) e “Ultrasom” (2010). Neste último,com o qual venceu o Prêmio da Música Brasileira,tira sons dos ruídos de um exame pré-natal e do primeiro choro de sua filha. Em outro trabalho,registra música a partir do barulho de um Fusca em aceleração.
— Quando eu me lancei como artista (em carreira solo nos palcos),as pessoas imaginavam uma coisa supervisceral,tocando para caramba com muita técnica. Mas eu começava a batucar no fusca,era performance na veia. Foi aí que os artistas se aproximaram — lembra.

Obra de Ricardo Siri — Foto: Ana Branco
O uso de materiais não convencionais não é mesmo de agora para Siri,como diz a curadora.
— Alguns pintores usam cera de abelha na mistura de tintas ou no processo de pintura para conservação. Mas,aqui,Siri traz uma coisa interessante da arte contemporânea que é sair da ideia de que a arte tem materiais específicos. Não se fazia pintura que não fosse a óleo. Siri é parte de um entendimento que traz a arte para perto,no sentido de que tudo vira material. Tem gente que consome mel todo dia e nunca pensou que ele poderia ser o ponto de partida para um trabalho.

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