
Pirraça na praça: pai e filho na Praça da Paz Celestial,em Pequim — Foto: Marcelo Ninio
GERADO EM: 27/07/2026 - 18:37
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Em 2025,a China registrou 7,92 milhões de nascimentos. No mesmo período,26 milhões de chineses atingiram a idade de aposentadoria. A população do país envelhece numa velocidade maior do que a da maioria das grandes economias,criando um dilema de produtividade que a robótica não consegue resolver. Essa conta que não fecha virou um dos maiores obstáculos à ambiciosa meta de modernização estabelecida pela liderança.
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Não é surpresa que o desafio demográfico faça o governo chinês perder o sono. Para um país em desenvolvimento,envelhecer antes de ficar rico é o roteiro clássico de estagnação econômica conhecido como a armadilha da renda média. A marca anual inferior a 8 milhões de novos bebês na China representou uma queda de 17% — foi a mais baixa desde que a estatística começou a ser aferida,em 1949.
Para o governo chinês,2025 marcou também um aniversário com gosto amargo,de dez anos do fim da política de filho único. Como demonstram os números,foi uma década praticamente perdida no esforço estatal de estimular mais nascimentos. Instituída em 1979,quando o país iniciava a abertura que catapultou um crescimento econômico sem precedentes,a política do filho único foi implementada com rigor e requintes de brutalidade,que deixaram marcas profundas.


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Embora o controle demográfico tenha adotado exceções ao longo do tempo,seu espírito moldou toda a sociedade chinesa,de formas que vão além dos gráficos de produtividade. Primeiro,subverteu a mentalidade familiar tradicional que valorizava grandes proles,convencendo muitos chineses de que menos é mais. Novos estudos sugerem um contágio de décadas de controle populacional: filhos únicos preferem famílias menores.
O que era política oficial se transformou em tendência social. Em parte,isso explica o insucesso das campanhas do governo chinês em estimular o aumento das famílias desde 2022,quando a população do país encolheu pela primeira vez em seis décadas. Autora de um estudo lançado este ano,a demógrafa Shuang Chen investigou a psicologia por trás do declínio,com base na experiência vivida pelos milhões de chineses que não têm irmãos.
Para os filhos únicos que cresceram em áreas urbanas da China com “níveis excepcionais de investimento em sua educação e bem-estar”,cercados de alta expectativa de sucesso,sua infância pode explicar a preferência por ter também apenas um filho,diz Chen. Outro demógrafo chinês,Yi Fuxian,que teve seu livro proibido na China pelas críticas à política de controle populacional do governo,reforça a tese com o argumento econômico: numa sociedade altamente competitiva,é melhor concentrar os recursos numa criança só.
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Para quem vive na China e sabe que a maioria tem boa chance de ser filho único,é tentador atribuir certas características da sociedade à chamada “síndrome do pequeno imperador”. Algumas são comprovadas por estudos comportamentais,como o excesso de individualismo e a aversão ao risco. A criação em série de meninos e meninas mimadas desagrada o governo,que tenta promover um espírito combativo,sem muito sucesso.
O controle populacional chinês implementado por quase quatro décadas costuma ser descrito como um dos mais radicais experimentos já realizados pela humanidade. Mas seus efeitos ainda estão longe de ser totalmente desvendados.

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