
Paes tenta atrair prefeitos enquanto candidatura de Ruas não tem sido apoiada por municípios liderados pelo PL — Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert e Divulgação/Vittor
Desde que decidiu se lançar ao governo do Rio,o ex-prefeito da capital Eduardo Paes (PSD),aliado do presidente Lula,tem o desafio de furar a bolha criada pelo PL no interior fluminense — no pleito passado o partido de Jair Bolsonaro saiu das urnas com o maior número de prefeituras e mapeava ter aliados em 70 dos 92 municípios do estado. Nas últimas semanas,porém,ao menos parte dos que comandam as máquinas públicas dessas cidades não tem trabalhado,como esperado,para impulsionar a candidatura de Douglas Ruas (PL) ao Palácio Guanabara,movimento interpretado com traição pelo PL e que ocorre em meio a articulações do grupo político de Paes,que visitou todos os municípios do estado.
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O baixo engajamento pode ser observado nas redes sociais. Levantamento feito pelo GLOBO na última semana mostra que nove dos 22 prefeitos eleitos pelo PL evitaram declarar publicamente voto em Ruas nos primeiros dias da campanha,iniciada oficialmente no último dia 16. Parte deles tem uma característica em comum: mal abordam as eleições deste ano ou apenas manifestam seus apoios a candidatos ao Congresso.
Aliados de Paes contam que o movimento faz parte da estratégia da campanha e sabem que os prefeitos e políticos locais que desejam caminhar com o PSD podem esbarrar em uma dívida eleitoral com o bolsonarismo ou em retaliações por infidelidade partidária. Por isso,contam com um aceno indireto de apoio,como não mergulhar na campanha de Ruas,deixando o ambiente eleitoral morno,e até colaborar com candidatos de Paes ao Congresso e para a Assembleia Legislativa do Rio.
Um aliado de Paes diz que a incógnita sobre a sucessão ao Palácio Guanabara desde a renúncia do ex-governador Cláudio Castro (PL) embaralhou ainda mais o tabuleiro. Alguns prefeitos aguardavam o julgamento dos recursos de Ruas,que tentou assumir o Executivo por ter sido eleito presidente da Alerj. No entanto,por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF),o governo é temporariamente chefiado pelo presidente do Tribunal de Justiça do Rio,Ricardo Couto.
Apesar de não admitidos publicamente,os apoios são vistos como traição por membros do PL. A falta de engajamento de correligionários e bolsonaristas com o palanque do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) no Rio já levou o senador a gravar um vídeo ameaçando aqueles que se juntarem a Paes.
O prefeito Ramon Gidalte (PL),de Casimiro de Abreu,é um exemplo. O calor das eleições polarizadas não passou perto de suas redes na largada da disputa estadual. Ficou em junho,quando em um intervalo de 15 dias Gidalte recebeu na cidade e elogiou Paes e os petistas André Ceciliano e Lindenberg Farias,além de Bruno Bonetti,presidente do PL na capital fluminense. Desde então,o prefeito fez apenas publicações sobre o município,fora uma outra agenda com o correligionário mês passado.
Ao ser questionado se estava propositalmente esfriando a campanha na cidade de 17 mil habitantes,Gidalte negou. Somente no sábado,após o contato do GLOBO,o prefeito gravou um vídeo no lançamento da campanha de Ruas e publicou nas redes.
— Estou aguardando um comando do partido. Procuro ser muito discreto e não gosto muito de aparecer. Sou do PL desde 2022. Entrei no partido a convite do deputado Altineu Côrtes (presidente estadual da sigla) antes do ex-presidente Jair Bolsonaro — justificou na véspera do evento. — Recebi Paes por gentileza e para atender a um pedido de um vereador da minha base. Meu apoio é para o candidato do meu partido,Douglas Ruas,a quem também recebi.
Quem também busca passar fora do radar eleitoral é Galileu Freitas (PL),de Sumidouro,na Região Serrana. No mês passado,ele declarou apoio a Pedro Paulo (PSD),aliado de Paes na corrida ao Senado,e gravou um vídeo ao lado da deputada Laura Carneiro (PSD),candidata à reeleição.
— Os deputados federais que já trabalharam aqui pela nossa terra certamente terão votos em nosso município,independente da bandeira partidária — diz Freitas.
Outro caso é o da ex-prefeita de Saquarema Manoela Peres,que busca uma vaga na Câmara. Nos últimos dias,começou a circular material de campanha dela ao lado de Paes,Pedro Paulo e do vereador Flávio Valle (PSD),candidato a deputado estadual. Procurada,Peres disse que não autorizou material que não seja com Ruas e Flávio Bolsonaro.
Os episódios não se restringem ao PL. Em Armação de Búzios,na Região dos Lagos,o bolsonarista Alexandre Martins,do Republicanos,decidiu permanecer neutro na disputa ao governo,mesmo após sua mulher,Daniele Martins,que disputa uma vaga na Alerj,receber apoio de Flávio.
Nos bastidores,a neutralidade é vista como uma tentativa de Martins de construir uma ponte com Paes. Na semana passada,o candidato do PSD fez uma caminhada em Búzios que terminou com um rápido encontro e abraço ao prefeito na rua,mas fora das vistas do público e da imprensa. No dia seguinte,Ruas fez duas agendas na Região dos Lagos e visitou a cidade. O candidato,não encontrou Martins ou Daniele.
— Neste momento estou focado na cidade e no partido,com a candidatura da Dani. Meu candidato é o Flávio Bolsonaro e (para o governo) está ainda tumultuado — afirma o prefeito.
Já PP e União desembarcaram da aliança para a atual disputa no estado. Oficialmente,os partidos liberaram os filiados a apoiarem qualquer um dos candidatos,mas os caciques têm demonstrado preferência por Paes. Um deles é o deputado federal Dr. Luizinho (PP),que garantiu a colaboração do prefeito de Nova Iguaçu,Dudu Reina (PP).
Um dos coordenadores de campanha de Ruas,Bruno Bonetti nega traições no PL:
— O PL confia 100% na integridade e fidelidade da Manoela Peres e todos seus candidatos. Rodar material pirata é da velha política. E institucionalmente um prefeito encontrar e demonstrar gratidão sobre emendas e recursos é normal.

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